Capítulo 2 – Protagonista

… Notícia bombástica: dentro da sua história, todos os seres que vivem ao seu redor – absolutamente todos – são personagens.

Hum… A princípio, uma afirmação dessas pode até soar um tanto estranha, mas também não é nada de extraordinário, certo? Parece até meio óbvio, não? Só que, acredite em mim quando digo: isso não tem nada de óbvio.

Sempre que aceitamos enxergar os seres vivos como personagens da nossa história, nós estamos coisificando cada um deles. Estamos transformando um fluxo vital, único e surpreendente, em um mero objeto. Um bibelô. Um saco de batata – ou de pancada. Nós deixamos de nos relacionar com a vida que existe nesses indivíduos e passamos a nos relacionar com a imagem que fazemos deles. Lidamos com as expectativas que criamos, com os rótulos que estampamos, com as interpretações que alimentamos.

Um personagem, via de regra, segue uma linha de ação específica. Esperamos que ele aja de determinada maneira, sempre de acordo com as ações anteriores – vulgo, as ações conhecidas. Colocamos o personagem dentro de uma caixinha. Muitas vezes, atribuímos, até, alguns comportamentos dominantes, que regem praticamente todas as ações daquele fragmento da nossa história. Nos impedimos – e os impedimos –, assim, de nos surpreender. Impedimos que qualquer elemento novo, digno de nos mostrar uma nova faceta, ainda desconhecida, se manifeste ou se sinta bem-vindo.

… Queremos nos relacionar com o que conhecemos daquele personagem, não com suas variações, suas mudanças – e muito menos com sua sombra.

Claro que eu estou generalizando e sendo bem dramático (de novo). Ainda assim, sempre que dizemos conhecer alguém, de certo modo, estamos matando essa pessoa. Matamos a pessoa e passamos a lidar com um personagem. Matamos a vida que flui nela, em contínua expansão e transformação, e a enterramos dentro de um caixote, lacrado e rotulado como conhecido.

E por que fazemos isso?

Acreditamos que essa certeza é necessária para conseguirmos nos relacionar. Se enxergássemos todos, o tempo todo, como metamorfoses ambulantes, seria difícil atribuir sentido a qualquer coisa. Mas é isso, vê? Nós atribuímos sentido às coisas. Não conseguimos atribuir sentido às pessoas. As pessoas atribuem sentidos para suas próprias vidas. Ninguém pode impor um sentido para outra.

Podemos abrir portas, uns para os outros. Mas eu não posso obrigar ninguém a pensar como eu; a tirar as mesmas conclusões que tirei de uma experiência. Ninguém pode me dizer como eu devo enxergar o mundo – exceto se eu permitir; se eu ceder o controle de minha mente para outrem. Tudo o que eu penso e sinto é baseado nas minhas interpretações e conexões de todas as experiências que já tive. De tudo o que já imaginei. De tudo o que já sonhei. E ninguém tem acesso a isso para determinar um rumo obrigatório. Ninguém tem o poder de ver o mundo como eu vejo.

Os melhores professores, portanto, são aqueles que mostram inúmeras possibilidades de caminhos – e não, apenas, o caminho certo. São aqueles que nos chacoalham, nos bagunçam – ao invés de colocarem tudo em caixinhas. Ao nos abrirmos para eles – confiando nos aprendizados que extraíremos desses encontros –, tais mestres não surgem com ordens prontas, lindas e maravilhosas. Eles instigam as nossas buscas, não as nossas chegadas. Eles alimentam as nossas dúvidas, nunca as nossas certezas.

E um personagem é uma certeza. Um personagem não pode nos ensinar nada novo – exceto quando ganha voz própria. Quando foge dos nossos mandos e desmandos. Quando subverte o destino óbvio que havíamos formulado para ele. Quando se rebela e toma caminhos inimagináveis.

… Quando se torna, igualmente, o criador de uma história maior.

Agora, da mesma forma que os demais seres viventes são personagens dentro da nossa história, nós também somos. Nós também nos colocamos, invariavelmente, dentro de certos limites. Também atribuímos algumas características como sendo nossas – e outras como não-nossas. Eu sou muito criativo, mas um desastre na cozinha. Eu sou muito boa com contas e péssima com dívidas. Eu amo viajar e detesto muvuca.

Limites. Nós acreditamos que precisamos de limites. Porque os limites parecem ser o caminho mais lógico no cultivo de certezas. São eles que dão contornos mais nítidos para as nossas experiências. Se eu queimei as últimas oito tentativas de fazer ovos mexidos, isso claramente quer dizer que nunca serei um bom cozinheiro. E, pensando assim, eu desisto dessa história de cozinhar. Não é para mim. Cozinhar me frustra, me irrita, me coloca para baixo, porque eu simplesmente não sou bom nisso.

… Ah, é? Será mesmo?

Antes de matarmos as nossas próprias ideias, fixando-as em pontos específicos, elas também têm vida própria. Elas nascem como simples curiosidades. São pontos, até então, desconexos que, de repente, se unem e geram algo novo. Com o tempo, conforme alimentamos essa delicada criaturinha, ela começa a ganhar corpo, a crescer, a ficar mais forte, mais pronta para sair de dentro de nós e conhecer o mundo, lá fora. No dia em que o faz pela primeira vez, é normal que saia gritando, abrindo o maior berreiro; mostrando para tudo e todos que está ali, agora. Depois, de acordo com os cuidados que dedicamos, ela vai aprendendo mais e mais, conhecendo novas facetas deste mundão interminável. Ela ainda esperneia, ainda chora de vez em quando; ainda fica confusa, perdida, mas também aprende a conversar. Aprende a ouvir. Aprende a aprender. Aprende a debater. Aprende a inventar moda. Aprende a se abrir e a criar.

Eu cresci vendo o meu avô cozinhar todo domingo. Ele assobiava, cantarolava, quase dançando, naquele trançar de pernas que ia de lá para cá na frente do fogão. Pequeno, eu ficava sentado em um banco, admirando toda aquela alegria, rindo de suas estrupulias culinárias. Ele me deixava provar quase tudo e meter o dedão para raspar o fundo das formas de doces – um restinho bem generoso, há de se dizer. Assim, foi natural que eu alimentasse, dentro de mim, a associação de que cozinhar era algo divertido. Eu, afinal, relacionara o ato de cozinhar à alegria demonstrada pelo meu avô. Mesmo quando ele morreu, pouco tempo depois, aquelas lembranças permaneceram vivas aqui dentro.

… Uma ideia havia surgido. Uma ideia instigante, positiva, motivadora.

Uma ideia que permaneceu em stand by, guardadinha, enquanto eu crescia, estudava e começava a trabalhar. Passei a sacar meu vale-refeição para comer em restaurantes do shopping mais próximo, na hora do almoço. A gente comia comida congelada (no caso, descongelada, sim?) à noite, porque todo mundo trabalhava até tarde, lá em casa. E tudo ia muito bem, obrigado.

Até que chegou o dia em que decidi, enfim, morar sozinho. E percebi que, pela primeira vez, eu teria de me virar por conta própria. Teria de abastecer minha própria geladeira; teria de fazer faxina e lavar a minha própria roupa (passar é um conceito muito relativo); teria de cozinhar a minha própria comida.

… Ah, moleza! Cozinhar é divertido, lembra?

Optei por começar pelo básico: um pouco de arroz (daqueles para privilegiados apressados, que vêm em saquinhos porcionados) e dois ovos mexidos. O arroz ficou empapado e os ovos queimaram. Comi com um embrulho no estômago, mas comi. Era o que tinha, fazer o quê?

Na segunda noite, ainda tinha um batalhão de arroz grudado na travessa. Faltava apenas uma mistura. E lá fui eu me arriscar a fazer mais uma remessa de ovos mexidos. Queimaram, de novo.

A essa altura, a ideia que eu tinha de que cozinhar era algo divertido, passou a desembocar em uma opinião de que, talvez, os meus dotes culinários não fossem tão felizes quanto os do meu avô. Mas, é claro que eu não iria desistir diante de tão pequeno contratempo. Erros acontecem, fazem parte do aprendizado. Bora fazer mais ovos!

… Queimaram.

E de novo. E de novo. E o que antes era uma opinião, embasada em poucas evidências, logo foi tomando ares de convicção. Contra fatos, não há argumentos.

Será? Ah, mas e se eu tentar só mais uma? Vamos! E… queimou. E mais uma vez. E mais outra. Ok, agora chega. Eu realmente não levo jeito para a coisa. Cozinhar é um saco, isso sim. Eu nunca mais vou cozinhar nada na minha vida!

E pronto: a minha convicção, alimentada por oito evidências (interpretações de experiências), acabou por criar, dentro de mim, um senso de certeza. Uma crença praticamente inabalável de que eu não sei cozinhar.

Ou seja: lá atrás, a minha ideia nasceu, cresceu e virou uma opinião. Ao continuar a ser alimentada, ela se transformou em uma convicção. E, ao ser confirmada por novas evidências, tornou-se uma crença.

… E todas as crenças – absolutamente todas – são limitantes.

O que não quer dizer que todas sejam prejudiciais. Existem limites que nos ajudam, que servem como uma espécie de meta a ser alcançada – e, posteriormente, transcendida. É um horizonte que nos estimula a caminhar, a seguir em frente. São limites que nós mesmos estabelecemos – por meio do nosso irrevogável poder de escolha – ou que, mesmo quando impostos por terceiros (ou pela própria vida), enaltecem a nossa autoconfiança. Eles não nos tiram a liberdade de usufruir de todo o resto – eles nos dão a autonomia para desfrutar ao máximo o caminho que estamos percorrendo.

Só que também existem limites que nos encaixotam. Que nos deixam acuados, inseguros, fragilizados. Eles, pelo contrário, nos impedem de perambular pela vida; nos travam – nos fixam em um beco sem saída. Chegamos em um ponto que, como qualquer coisa muito utilizada, se desgasta e perde sua função. Fica esgarçado, sem cor, sem vida. Aquilo já não faz mais sentido. Já atrapalha mais do que ajuda. Mais gera dor do que dá prazer.

Na história dos ovos mexidos, cozinhar deixou de ser visto como algo alegre e prazeroso, e passou a ser uma tortura, uma fonte de raiva e desgosto. A primeira ideia (mais feliz) era um limitante que me movia e motivava. A crença final (mais amarga) me fazia empacar naquele ponto – de não cozinhar –, sem conseguir enxergar rotas alternativas.

A dor e o prazer, não por acaso, são os principais motivadores das nossas ações. Se eu lhe perguntasse, agora, quais são as melhores coisas da vida?, o que você responderia? Eu não faço a menor ideia. Mas acredito, piamente, que você listará várias coisas que enxerga como prazerosas. Talvez pense em comidas, viagens, relações, sexo e por aí vai. Independentemente dos itens que aparecerão em sua lista, a questão que nos importa, por ora, é que tendemos a associar coisas boas com sensações e emoções prazerosas.

E as piores coisas da vida? Tendem a ser as mais dolorosas. As que nos causam os maiores sofrimentos. As que associamos com as sensações e emoções mais difíceis de se lidar. A dor é vista como algo ruim (embora ela só esteja querendo nos ajudar, se você parar para pensar). Dor é um aviso de que algo não está funcionando como deveria. Dor é um sinal alertando que fizemos algo errado – enquanto o prazer é um incentivo; um sinal de que estamos no caminho certo.

… Pelo menos de acordo com as nossas crenças, convicções e opiniões.

Aliás, quanto mais encorpada for a ideia que sustentamos dentro de nós, mais prazer (ou dor) extrairemos das situações em que a experienciamos. Se eu tenho certeza de que cozinho mal (crença), todas as vezes em que precisar esquentar a barriga na boca do fogão, me sentirei péssimo, irritado – será um sofrimento, uma tormenta. Afinal, eu associei muita dor à experiência de cozinhar. Carrego, comigo, todos os dias, evidências que me provam que sou um desastre dentro de uma cozinha. Ao que tudo indica, a minha frigideira chora sempre que eu me aproximo, mal-intencionado. Os ovos tremem. Quanto mais eu cozinho, neste caso, pior eu fico (e, talvez, eu até alimente um prazer destrutivo em me ver fracassando, só para confirmar minha crença de que não me dou bem com panelas). A crença é o estágio marombado de qualquer ideia. É difícil discutir com ela – sempre corremos o risco de tomar uma senhora surra.

Por outro lado, quando eu pensava que não era lá muito bom, mas não tinha um senso de certeza de que era um completo fiasco na arte de fazer ovos mexidos (convicção), a falta de destreza demonstrada me incomodava, sim, só que ainda havia espaço para tentar mudar isso. Não era lá muuuito espaço, mas eu ainda me permitiria uma última chance – umas duas ou três vezes. Se eu acertasse os benditos ovos, aí, quem sabe, poderíamos começar a negociar um avental mais bonitinho, uns equipamentos mais arrojados… Isso porque a dor das evidências em que, supostamente, fracassei, ainda duelava com o prazer das lembranças do meu avô, todo felizão, assobiando e fazendo subir aquele cheiro delicioso que abraçava a casa inteira. A dor de ver as primeiras remessas de ovos queimados ainda não era intensa o suficiente para calar a minha expectativa (prazerosa) de chegar perto do nível de maestria do meu avô. A convicção, afinal, é uma ideia musculosa – que pode bater, mas também pode tomar uns sopapos.

Já quando eu apenas achava que não tinha tido muito sucesso nas primeiras tentativas (opinião), eu ainda conseguia rir da situação e dedicar muita energia para botar a mão na massa (ou ovos, no caso) e melhorar. A dor de ter errado era, ainda, bem pequena, influenciando pouco minhas ações futuras. Minha memória afetiva, diante de uma cozinha, ainda falava mais alto. Minha confiança de que conseguiria mudar e aprender ainda brilhava mais do que os pequenos deslizes cometidos. Isso porque a opinião é um personagem magrelinho, que mal começou a frequentar a academia. Ele sabe (ou, pela saúde de seus dentes, seria bom que soubesse) que ainda precisa trabalhar muito até ficar fortinho.

… E, poxa, tudo isso, apenas, por causa de alguns ovos mexidos? Imagine se fosse algo mais significativo?

(Ah, e, antes de mudar de assunto, queria esclarecer uma coisa dessa história ovípara: ela é fictícia, ok? Eu sei fazer ovos mexidos – e, por ora, não muito mais do que isso).

A grande questão, aqui, é que, ao atribuírmos certas qualidades e defeitos (limites) a nós mesmos, nós nos coisificamos.

E, coisificados, se torna cada vez mais difícil nos relacionarmos com nós mesmos. Estamos diante de um personagem que ganhou vida própria – e que de vivo, geralmente, não tem nada. Seguimos padrões comportamentais que funcionam. Ou, no mínimo, já funcionaram um dia. Mecanizamos todos os processos.

E, entenda: os padrões não são vilões. Eles nos ajudam em diversos momentos. Sem eles a vida seria impossível (ou, pelo menos, muito mais trabalhosa). Afinal, são os padrões que nos permitem fixar um aprendizado e evitar gastar uma imensa quantidade de energia repetidas vezes com a mesma tarefa.

Você, por acaso, se lembra de como foi difícil aprender a caminhar, quando era um bebezinho? É provável que não, mas, em todo caso, duvido que tenha sido uma tarefa das mais fáceis. Primeiro, você teve de aprender a controlar seus membros. Depois a se virar. Sentar. Engatinhar. Se levantar. Cair. Levantar de novo. Se equilibrar em pé… Foi difícil, mas hoje você está aí, serelepe, caminhando sem nem precisar parar para pensar nisso.

… Tudo graças aos seus padrões – à força dos hábitos.

É a velha história de aprender a dirigir… Quem nunca suou em bicas ao pegar pela primeira vez em um volante? Ao tentar orquestrar os movimentos de pés, mãos, olhos, entre pedais, marchas, setas, espelhos e o trânsito caótico lá fora? No começo, convenhamos, tudo aquilo parece uma loucura intragável. Parece que será impossível conduzir um carro, até mesmo em linha reta, pela mais deserta das ruas. É sério, eu não consigo! Não dá, não dá! Os outros devem ser verdadeiros gênios para conseguir fazer isso, só pode!

E eles não são. Aqueles que sabem dirigir só estão um passo além. Eles conseguiram automatizar aquele processo complexo, criando um padrão a ser seguido.

… E o que é um padrão?

Um padrão é um conjunto de regras de conduta. Essas regras são formadas a partir de informações captadas pelos nossos sentidos (há quem diga que são doze, seis, cinco…). Nossa mente reúne todos os dados disponíveis, classifica e estoca em nosso cérebro, criando uma fórmula de como agir em determinada situação. A partir daí, sempre que nos depararmos com circunstâncias similares àquelas que nos forneceram as informações estocadas, fazemos uso dessas regras de conduta para poupar energia – evitando um retrabalho.

Se não fossem os padrões, você não estaria aqui. Não estaria lendo estas palavras. A linguagem, afinal, é um grande padrão. A forma como você toma banho é um padrão. Como escova os dentes, como mastiga, como seu corpo e seus órgãos funcionam. Vivemos em meio a padrões. Alguns são inconscientes, outros subconscientes. Alguns já nasceram assim, outros vieram de aprendizados conscientes – vulgo, foram adquiridos de propósito.

Hábitos são padrões comportamentais. Crenças são padrões de raciocínio. Dentro de uma história, os padrões estão escancarados desde o microcosmos até o macrocosmos. Das estruturas que alimentam os pensamentos e as ações dos personagens, até os arcos da trama narrativa; na divisão que estabelece um começo, um meio e um fim. Os padrões são cada um dos beats de um roteiro. São os clichês que já vimos milhares de vezes – e que só são clichês porque funcionam (ou já funcionaram muito bem, em algum momento).

Agimos de acordo com um padrão quando não precisamos pensar diretamente no que estamos fazendo. Fixar um padrão é como ativar o botão Piloto Automático no nosso painel de controle. Ligamos o Piloto Automático e ele nos leva, mecanicamente, sem grandes esforços, para o destino apontado de antemão. Podemos desfrutar de um cafézinho, enquanto andamos por uma rua lotada, falando no celular. Podemos, a partir daí, lidar mais confortavelmente com aquelas trocentas informações necessárias para se dirigir, por exemplo, sem nos desesperarmos. Basta, para tanto, obedecer a regra de conduta que já foi estabelecida, ao longo das incontáveis horas de treino.

Pois é… A partir do momento que aprendemos a realizar com eficiência alguma tarefa, como andar e dirigir, atingimos um patamar ótimo, que nos permite refazê-la inúmeras vezes sem que precisemos nos concentrar apenas nisso. Caminhamos sem fazer muito esforço para planejar a sequência mecânica dos nossos movimentos, ao mesmo tempo em que gastamos o mínimo necessário de energia psíquica. Os padrões, portanto, são aliados que nos permitem otimizar os complexos processos que permeiam toda a nossa rotina. São os padrões que nos permitem aprender qualquer coisa. São os padrões que colocam ordem na casa.

… Os padrões, não por acaso, são a mãe de todo e qualquer conhecimento.

A questão é que nós somos poupadores natos. Queremos sempre fazer o máximo de nossas histórias, sim. Mas, acima de tudo, queremos gastar o mínimo de energia para tanto – afinal, nossa energia é finita! Por isso, via de regra, depois de nos esforçarmos diligentemente para aprender algo novo (suando em bicas, muitas vezes), tendemos a nos abraçar a essa fórmula já estabelecida – esse padrão. Casamos com nossos hábitos, nossas crenças – e que seja eterno enquanto dure!

Afinal, se eu já aprendi a fazer algo de um jeito, por que iria querer aprender outro? Só para gastar mais energia? Que nada! Bobeira!

Talvez, em 99% dos casos, essa teoria murrinha se aplica – e funciona. Que diferença fará você aprender um novo jeito de caminhar? Exceto se for um artista (ator, atriz, dançarino, dançarina etc.) ou tenha algum problema de postura, é difícil que isso afete de forma significativa a sua vida. Caminhe do seu jeito que já está bom, já está funcionando. Que diferença faz se você coloca o feijão em cima do arroz ou o arroz em cima do feijão? Funciona para você, então, segue em frente! Vá, sem medo de ser feliz, sem olhar para trás.

… O problema surge quando queremos algo novo. Quando sentimos que precisamos de algo diferente. Que determinado comportamento já não faz mais tanto sentido para nós.

Eis que precisamos mudar, porque a vida não pode ser só feita de movimentos mecânicos. Precisamos de algo mais. De algo pulsando, vivo, de fato. Aí entra a criatividade. Aí entra a busca por novos significados, novos jeitos de se fazer algo que a gente se acostumou a deixar rolar no modo automático. Buscamos novos olhares, novas interpretações, novos ares.

Só que querer não é poder. Porque, dentro de nós, existem os padrões incrustados. Existe o personagem que construímos para nós mesmos – o protagonista da nossa história, o suprassumo dos padrões. Existem as obrigações, os limites, as qualidades e os defeitos que assumimos como nossos. E seria incoerente da nossa parte ignorá-los.

… E nós de-tes-ta-mos incoerência.

Incoerência é, praticamente, um atestado de culpa. É uma tela azul, um alerta de falha no sistema. Em termos mecânicos, as coisas estão funcionando superbem… por que raios você quer mexer onde não deveria?

Porque você quer. Quer justamente por que não deveria. Porque, o ato de buscar uma transformação, nunca é algo confortável; nunca parte do conformismo. É sempre um risco. É sempre um passo em direção ao desconhecido. Não se origina na mentalidade da obrigação – e, sim, na diversão.

Mesmo que seja uma diversão dolorida. Uma diversão que exige um esforço tremendo. Porque as maiores diversões não são aquelas que vêm fácil. Não são aquelas que nascem do lugar seguro. São aquelas que se aventuram por terras inexploradas. A grande diversão não é uma paraíso encontrado, por acaso, no meio do nada. Ela é o próprio caminhar. É a união de vários pequenos passos, várias diversões significativas que se integram. Não é uma questão de sentir apenas prazer ou de evitar a dor a todo custo – é a capacidade de criar algo maior. Algo que nos coloque em contato com o fluxo da vida. Algo que faça sentido.

E o que poderia fazer mais sentido do que a colheita à qual você se dedicou, por tanto tempo, com tanto amor? A colheita que só veio porque você arou a terra, plantou as sementes, regou, lapidou suas habilidades, deu tempo ao tempo… A grande diversão é uma criação sua, enquanto a pequena diversão vem de querer colher os frutos que outros plantaram.

… Vai por mim, a grama do vizinho não é mais verde – exceto se você quiser que seja.

A grande diversão advém de ações. Ela é ativa. Ela extrapola o que é conhecido. A pequena diversão é passiva. Ela acontece quando recebemos estímulos de fontes externas. Ela reforça os nossos padrões.

Quer um exemplo de pequena diversão? Televisão. Álcool. Drogas. Comfort food (comida com alto teor de gordura e açúcar). Não precisamos nos esforçar quase nada para extrair algum prazer desses meios. O prazer vem de imediato, quase de graça.

… Só que não existe jantar grátis.

Tudo tem um preço, uma consequência. O uso contínuo e/ou único e exclusivo desse tipo de fonte acaba gerando uma sensação de vazio. De entorpecimento. De falta de sentido. Porque nós só estamos consumindo o que os outros criaram, o que é fácil, o que é cômodo. Nós não estamos plantando nada que possa frutificar e criar uma nova realidade à nossa volta. Lembre-se, ninguém dá sentido para a vida de ninguém. Ninguém tem esse poder. Só você. Só você pode dar sentido para a sua própria vida.

Enquanto estivermos procurando por esse sentido nos frutos dos outros, estaremos imóveis, empacados no mesmo lugar.

… Quer dizer, então, que eu nunca assisto televisão? Nunca vou ao cinema? Nunca como pizza?

Não. Eu faço tudo isso. Só que eu procuro ter consciência do que busco, ao fazê-lo. Em um dia em que estou muito cansado, sem energia sobrando para gastar, posso muito bem encarar um desses atalhos. E tudo bem. Tudo bem porque eu sei que são atalhos. Eu sei que estou consumindo mais casca do que fruto. Só que nem tudo precisa ter profundidade, o tempo todo. Às vezes, a superficialidade também contribui para aumentar o repertório, expandir o campo de visão. Ela permite que nos movamos mais facilmente. Que andemos um pouco mais, mesmo que seja para o lado. Ou que fiquemos um tempo parado, descansando, recarregando as baterias.

A questão é: se nos contentarmos em ficar só colhendo esses frutos (cascudos), produzidos pelos outros, é possível que, uma hora, comecemos a achar que tudo é sempre muito igual. Sentimos a incômoda presença do tédio, da angústia – da depressão. Tudo tem um sabor similar. Todos os episódios contam a mesma história, apenas com outra roupagem. Todos os personagens da nossa história estão sempre dizendo a mesma coisa. É tudo uma coisa só.

… E cadê a graça nisso?

Ah, mas ler um livro não faz parte da diversão fácil? Ir ao teatro que você, Lucas, tanto gosta, também não tá no mesmo saco?

A minha resposta para isso, sem querer puxar a sardinha para o meu lado (mas já puxando), é não. Não, porque, ao ler um livro, nós participamos da experiência. Nós temos que usar a nossa imaginação, temos que criar mentalmente os mundos que são descritos. Na TV, a história é mostrada e nós a entendemos. Vez ou outra, sentimos junto com os personagens, mergulhamos na história, sim. Porém, quando lemos um livro, nós somos sempre uma parte co-criadora da experiência. Sem a nossa imaginação, sem as nossas sensações diante dos dramas de um personagem, a história não chega até nós.

No teatro (e em espetáculos de dança, concertos, shows, disputas esportivas e tudo mais feito ao vivo), contudo, a história muda um pouco de figura. Existem espetáculos que, assim como a TV e o cinema, só contam uma história. Eles vão lá, fazem tudo o que tinham que fazer e pronto; nada de significativo acontece. Continua tudo igual dentro de nós, espectadores. Nós vimos o que era pra ser visto; captamos a mensagem que estava sendo repassada e ok. É isso o que chamo de entretenimento.

E nada contra, insisto.

Só que existe um mar de diferença entre o entretenimento e o espetáculo que chama o espectador para fazer parte da experiência. Ao invés de alienar, este segundo aproxima. Ele nos convida para dançar, para cantar junto. Para pulsar, para sentir. Os espetáculos ao vivo têm o poder, quando elaborados com maestria, de criar uma relação entre o artista e o espectador. Uma relação entre dois iguais – que não poderiam ser mais diferentes. Ele desobjetifica; ele humaniza tanto quem está no palco quanto quem está na plateia.

Uma professora me disse, uma vez, que o bom ator nos transmite a certeza de que ele é um bom ator. Ele domina o seu campo de estudo. Ele chora, ele ri e nós, espectadores, o admiramos por isso. Agora, o grande ator é aquele que vive e compartilha aquela realidade, experienciada no palco, com o público. Talvez ele chore, talvez não… Mas o público chora com ele. O público ri por ele. Porque o grande ator não segura a vida dentro de si, para querer firmar um ponto de vista, contar uma história – passar uma mensagem clara e profunda.

… O grande ator é aquele que permite que a vida o atravesse. Ele preserva o fluxo. Ele se doa para que os outros vivam, junto, a sua criação.

E, assim, tudo ganha múltiplos sentidos. Incontáveis camadas de significado. Não é a ideia de um; é a união das experiências de cada um. E de todos juntos. É um todo que é muito, muito maior do que a mera soma das partes. Porque cada indivíduo enriquece a experiência de um modo que nenhum outro poderia. Quanto mais significados tudo ganha para um, mais sentido fará para todos.

… O grande ator, afinal, permite que todos sejam criadores, enquanto o bom ator alimenta criaturas.

Agora, nem mesmo o grande ator consegue obrigar o público a criar algo. Isso, repito, de novo e de novo, não faria o menor sentido. Seu papel é apenas fazer um convite. É dar um gostinho do que é estar no palco, atuando, de fato, ao invés de sentado confortavelmente na plateia.

… E que cada um faça o que quiser com esse convite, quando sair dali.

A minha busca, aqui, por exemplo, não é por atrair mais leitores, mais plateias… A minha busca é jogar sementes para o alto, para que elas possam cair nas mãos estendidas de futuros escritores, futuras atrizes, dançarinos, cantoras – novos artistas; os próximos criadores.

A minha busca é pelo grande ator que existe em mim. O grande ator que cultiva terras férteis, aqui dentro – e cujos frutos podem, vez ou outra, atiçar a curiosidade de alguém que esteja, por acaso, se contentando em sobreviver em um paraíso sem graça. O grande ator que é o meu herói; aquele ser capaz de enfrentar as maiores adversidades e extrair o melhor de tudo.

Só que o meu herói não é o protagonista da minha história. Não no começo dela, pelo menos. O meu protagonista ainda precisa comer muito arroz e feijão (o feijão em cima, por favor) antes de poder se enxergar como um herói. Por isso eu disse antes que as porradas que tomamos não são ruins. Nada é. Tudo serve para algum propósito – quando temos um propósito.

Meu protagonista é aquele que sai por aí coisificando. Que acha que os outros personagens só estão lá para apoiá-lo na sua curva narrativa, na sua jornada do herói. E ele sabe contar uma história direitinho. Sabe colocar todos os personagens em caixinhas bonitinhas (ou nem tão bonitinhas assim). Personagens que ilustram uma história toda coerente, sem nenhum fio solto – em nome da coerência, aliás, meu protagonista é capaz até de forçar algumas barras, de vez em quando, juntando informações de forma meio duvidosa (o importante, nesses casos, é fingir que ele mesmo acredita).

Meu protagonista adora um clichê. Adora arcos prontos, estruturas bem montadinhas, com encaixes pré-estabelecidos. Ele nem nota as possíveis mudanças nos outros; para ele, isso não importa. Ele prefere personagens chapados (vulgo, que não apresentam muitas camadas de significados – ainda que, em alguns casos, personagens bêbados possam funcionar igualmente bem). São personagens, apenas personagens que cumprem direitinho o papel que lhes foi designado. E pronto. E tchau. O show é do meu protagonista e de ninguém mais. Fulana fez um escarcéu? Ah, é porque ela é assim mesmo. Beltrano me chamou de falso? Ah, é porque ele é assado mesmo.

Meu herói, por outro lado, prefere escolher a vida. Ele opta por trilhar o caminho que mantém tudo fluindo, ao mesmo tempo em que ele próprio se metamorfoseia ambulantemente. Ele entende e usufrui muito bem, obrigado, dos padrões que permitem que siga andando, sem ter que pensar demais nisso. Porque, assim, ele consegue focar sua energia em criar novas realidades. E novos significados para suas experiências. E dar a devida atenção a cada uma delas, a fim de sentir tudo – absolutamente tudo – de um jeito que reverbere cada vez mais alto. Não porque esteja tentando aparecer a qualquer custo – mas por querer que mais seres viventes se sintam como ele se permitiu sentir. Que todos, juntos, compartilhem desta história, que não é só sua. É uma grande história. Uma só. Uma história de todos.

… Uma história de infinitos criadores e inventores de si mesmos.

Uma história que, por mais que seja única, nunca se repete. Nunca é a mesma. Nunca perde sua graça. Porque seus criadores sabem que é preciso se reinventar sempre, o tempo todo. Afinal, aí mora a eternidade.

Para o herói, para o grande ator, a ação criativa que funcionou uma vez, em um espetáculo, já não funciona mais. Ela precisa ser reinventada a cada nova sessão. Ela precisa ser vivida pela primeira vez, sempre. Se for marcada, enrijecida, reproduzida, ela já não está viva. Ela pode ser linda e maravilhosa, mas já não tem o poder de conectar, de estabelecer uma relação entre todos os envolvidos. Porque existirá apenas um mecanismo ali presente; um processo que rendeu frutos no passado. É uma representação de algo que um dia já viveu – e, agora, não vive mais.

A eternidade está em preservar o fluxo, em se permitir viver. Está, primeiro, na inocência da criança, que, de fato, vê tudo pela primeira vez. E, fato é que, estamos sempre vendo tudo pela primeira vez. Pelo menos quando enxergamos além dos personagens que criamos – e matamos, ao fixarmos como padrões e expectativas absolutas em nossa mente.

Só que não podemos nos fixar no olhar inocente da criança. Não podemos retroceder. Não podemos deixar de ver aquilo que já vimos. A criança viu algo e aprendeu com tal experiência. E agora? Como manter esse algo vivo? Como alinhar o aprendizado com a vida?

Não existe uma fórmula pronta para tanto. Se existisse, nada disso faria o menor sentido. Querer uma fórmula pronta para manter algo vivo é, no mínimo, uma antítese. Querer saber um meio certeiro de manter a vida fluindo é tentar esmagar uma borboleta na palma das mãos e esperar que, depois, ela saia voando. A manutenção da vida está em não saber como fazê-lo. Está na criatividade de inventar, sempre, novos jeitos, novas formas, novas danças, novos olhares, novas cores, novos sons, novos gostos, novos aromas, novos sentidos. O espaço do não-saber é onde a vida reside.

Eu preciso aprender com cada uma das experiências. Eu preciso, acima de tudo, aprender que tudo o que eu sei é que eu não sei nada ainda. Porque é impossível conhecer absolutamente tudo. É impossível conhecer cada vírgula, cada ponto de interrogação que existe na história dos outros. Tudo o que posso ser é um criador da minha própria história – um herói que quer compartilhar sua jornada com todos os outros heróis.

… E quando aprendermos a compartilhar tudo; a integrar tudo, enxergando apenas um único fluxo superior, aí, talvez, o impossível se torne possível.

Aí saberemos que sabemos. Aí deixaremos de ser heróis, e nos tornaremos deuses (e, se assim o for, nós já os somos – pois saber tudo é saber tudo; é eterno, é o sempre presente). Enquanto isso, no entanto, que deixemos para lá a pretensão de achar que sabemos. Que aprendamos que podemos, apenas, saber que nada sabemos.

… O que, por si só, pode ser muito libertador.

Pense nisso. Pense que você não tem a obrigação de saber tudo. Pense que você não precisa optar por nenhum caminho asfaltado – um asfalto que só foi colocado ali para facilitar os tantos passos que escolheram seguir aquela mesma velha direção. Pense que você pode se dar a permissão de só experimentar – só aproveitar ao máximo cada novo instante. Porque ele é novo. Porque isso é tudo o que você pode, de fato, fazer. Pense como seria tirar o peso das costas de ter que saber algo; ter que seguir alguma estrada. Imagine o quanto você não poderia se divertir mais, rir mais, dançar mais. Fazer mais papel de bobo – e tudo bem.

Não existe preocupação, obrigação. Você apenas se abre por completo. Você dá o que de melhor puder dar, a cada novo instante. Nada deve ser julgado – nem o que é seu, nem o que vem dos outros. Nem o passado, nem o presente, nem o futuro. Tudo existe por uma razão – por mais desconhecida que ela seja. Não saber permite que a cobrança desapareça. E, em resposta à ausência de exigências, o perdão surge. O perdão é a cura. É o fechamento das feridas, dos incômodos que impedem a entrega total. Você perdoa a si mesmo por todo e qualquer erro que diz ter cometido. Porque só você pode apontar os erros em seus próprios atos.

Depois, conforme o tempo avança, sondando a eternidade, você percebe que o perdão também não é necessário. Não quando se lida com o herói interior. Porque o herói está conectado ao fluxo do universo. Ele é a própria vida. É a vontade do universo como um todo. E, assim, já não existem erros. Tudo o que você faz, nessa esfera, tem um propósito. Tudo o que todos fazem acontece por um motivo. Acontece por causa das conexões que alimentamos. Das interações que nos permitimos. Todos são caminhantes. Todos fazem parte da mesma rede. Porque eles não são só os outros. São você também. Você é o universo. E, dessa percepção, maior, nasce o amor. O amor por mim mesmo, que me permite a abertura total, a imersão absoluta no fluxo – livre de amarras, vergonhas, temores. É o amor por tudo, por todos, que permite a relação entre iguais – não mais entre personagem e objeto. Porque somos iguais. Somos a mesma história.

… Uma única história.

Uma história sem protagonistas. Uma história de infinitos heróis.

Ué, mas se todos forem heróis, ninguém é herói, de fato. Se fosse assim, a quem iríamos salvar?

… A nós mesmos. O universo como um todo. Tudo.

 

***

 

Quando eu comecei a escrever este livro, alimentei por um tempo a pretensão de compartilhar algumas pérolas de sabedoria que julgava terem enriquecido a minha vida. Estava pronto para ser um protagonista. Para tanto, iria seguir um esquema que havia passado os últimos seis meses bolando. Eu organizei um arquivo com mais de mil páginas (de novo!), no qual juntei todas as teorias que tinham causado uma diferença – um impacto – na minha história.

Só que, de repente, ao me sentar aqui, na frente do computador, tudo isso ficou para trás. Eu senti um impulso, vindo lá do âmago, que me levou a simplesmente colocar as palavras nesta ordem. Uma ordem, até então, completamente inesperada.

… De repente, aqui estou eu, escrevendo tudo isso sem dar a mínima bola para aquele imenso arquivo.

Quer dizer que foi um tempo desperdiçado? Evidente que não. Se eu não tivesse tido todo aquele trabalho de organizar esses conhecimentos, provavelmente este livro não estaria sendo escrito desta maneira. A questão é que escolhi não enrijecer a criação desta obra. Resolvi não obedecer uma arrumação pré-estabelecida. Decidi manter o fluxo vivo, preferindo mergulhar nele, ao invés de cercá-lo e conduzi-lo por um curso seguro e conhecido.

Quer dizer que aquele outro livro, que idealizei meses atrás, não funcionaria? Não. Não quer dizer isso. Quer dizer, apenas, que eu fiz uma escolha diferente. Que eu escolhi não saber o que eu escreveria. Que eu não me obrigaria a seguir uma estrutura fixa. E que, tomando essa liberdade, ainda assim estou utilizando tudo o que aprendi e organizei. Porém, estou me arriscando a deixar que minha criatividade trabalhe junto. E que, com ela por perto, tudo se torne mais leve, mais divertido.

Agora, escrevendo estas linhas, sinto como se estivesse criando uma melodia, não um texto. As ideias vêm e pousam na folha como as notas que saem de um piano. Depois, de um violino. Depois, um trompete, uma flauta, uma guitarra, um pandeiro, um tambor. É uma orquestra. Cada palavra vibra à sua maneira e encontra o seu próprio lugar. E são elas que dão cadência, dão ritmo a tudo. Eu as sinto, tanto quanto as penso.

… Pode parecer loucura, falando assim, eu sei, mas é o mais próximo da verdade que consegui chegar – e comunicar.

E eu também sei que este livro, esta estrutura mais livre – na medida do possível –, está longe de ser perfeita. A questão é que eu não estou em busca da perfeição. Não mais. Já busquei muito essa crença chamada perfeição. Agora, não mais. Agora ela já não faz o menor sentido para mim. Porque a perfeição, afinal, é um conceito extremamente artificial, que não existe em parte alguma. É uma ilusão, um mecanismo de defesa. Uma máquina tem que ser perfeita; um ser vivente não. A imagem que fazemos da perfeição é a de uma coisa morta – parada, imutável, absoluta. O que é vivo é transitório. É mutável. É imperfeito. E é, justamente por isso, que o ser pode ir além. E que é belo. É único. É heróico.

Eu (que nada sei) penso que achar que eu sei me faz criar trilhos. E, quando ando sob trilhos, eu acabo mecanizando o processo. Acabo ganhando velocidade, sim; acabo parecendo mais eficiente, sim; mas a vida se acaba em mim. O meu esforço está voltado para sustentar um trilho, não a vida que, a princípio, criou aquele caminho. Fico sempre revisitando aquele mesmo lugar, para o qual um dia eu fui e deu sentido para a minha jornada. Eu fico transitando entre o lá e o cá. E, por fim, acabo sentindo que eu não estou mais saindo do lugar. Porque estou visitando sempre os mesmos pontos. Sempre as mesmas estações. Eu me contento em ser um observador na janela, vendo a paisagem. Lendo histórias que outros criaram e chegaram até mim. Eu me sinto mais seguro, sim. Eu me sinto mais confortável, sim. Mas eu já não estou avançando em nenhum sentido.

Nessas horas, quando tudo o que eu penso é que já sei tudo o que tinha para saber – e isso me deprime, ameaçando minha inspiração –, desço do trem na próxima estação. E me permito caminhar um pouco pela cidade, rumo ao nada. Rumo ao que está além dela. Rumo ao mato.

Claro que caminhar pode parecer, agora, algo extremamente difícil. Estou acostumado, afinal, a ser levado de um ponto ao outro pelo trem. Ganhei uns quilos a mais – quilos que mostram quão ricas foram as minhas experiências anteriores. Meu fôlego para caminhar não parece ser tão duradouro quanto antes. Ainda assim, eu insisto. Continuo caminhando até que a cidade que vi ser construída, no entorno daquela estação de trem, desapareça por completo.

Eis, aí, que percebo, no horizonte, uma floresta.

Uma floresta da qual eu não sei nada. E na qual eu quero me entranhar. É uma vontade mais forte do que esse meu eu – cheio de quilos a mais, cansado e suando em bicas – consegue conter. Um eu que me leva até lá, mesmo morrendo de medo. Um eu que, mesmo desejando matar – ou, no mínimo, enjaular – tudo o que se move nas sombras selvagens, muitas vezes vê nascer, surpreso, um sorriso no nosso rosto.

E, a partir do momento que estou na floresta, quando olho de longe para a cidade, no horizonte oposto, percebo que tampouco a conheço. Ela, que de perto, aos meus olhos, parecia tão ordenada, tão rotineira – sempre mais do mesmo –, agora ganha contornos mais vivos. Mais atraentes. E tudo bem. Eu não sofro por isso. A distância que vejo entre nós não me incomoda. Sei que um dia estarei lá, de novo.

… E será como se fosse a primeira vez.

 

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Continue lendo: Vencer o JogoArco Narrativo

 

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