Introdução ao Livro

… Sabe aquela vontade de fazer algo e não ter a mínima ideia de por onde começar?

Pois eu conheço essa experiência muito bem. Mais do que gostaria de admitir, confesso. Se existe algo em que eu me tornei mestre nos primeiros trinta anos da minha vida foi precisamente em me sentir perdido. Perdido de olhar para os lados – ou para frente; ou mesmo para trás – e me perguntar: e agora, o que eu faço?

Eu não sei. Eu não sei era a resposta mais comum, a primeira que surgia. Aquela que chegava-chegando, com tudo, inundando minha mente e, invariavelmente, me deixando travado no mesmo lugar. Éramos só eu e o beco sem saída. Eu e a sensação de estar encurralado – ou, quem sabe, me afogando, morrendo pouco a pouco, sufocado.

Parece meio dramático, né? E é… Só que é como eu me sentia, de verdade. Eu poderia começar este livro dizendo que isso tudo é besteira, que eu estava exagerando, fazendo tempestade no copo d’água. E seria fácil dizer algo do tipo agora, quando eu não estou lá. Seria cômodo para mim, neste momento, reforçar aquelas palavras de incentivo que sempre escutamos (de quem, muitas vezes, só quer o nosso bem): vai dar tudo certo; no final, tudo sempre fica bem e vivemos felizes para sempre; até porque, quando a gente chega ao fundo do poço só podemos subir etc.

A questão é que não era tão simples assim quando eu me via naquele lugar – no tal beco sem saída. De nada adiantavam aquelas palavras vindas de fora (por mais bem intencionadas que fossem), pois, para mim, elas chegavam ocas. Eram presentes com embalagens maravilhosas, mas vazios por dentro. Eram só cascas. Só caixas – nas quais eu aproveitava para enfiar todas as minhas angústias, bem amarrotadinhas.

Eu sempre soube que tenho infinitas opções de escolha. Sempre soube que nasci cheio de privilégios, com muitos recursos à minha disposição. E isso, no caso, não parecia ajudar em nada. Aliás, só piorava a minha situação – por mais besta que isso possa soar, para quem vê () de fora. Porque eu sabia que poderia conquistar o mundo, se quisesse. Eu sabia que todos os ventos sopravam a favor. Eu sabia que a vida deveria ser linda, cheirosa – uma dádiva! –, e que ela vivia sorrindo para mim.

… E, ainda assim, eu não fazia ideia do que fazer! Não tinha a menor pista de por onde eu poderia começar a criar o caminho que me tiraria daquele beco fedorento e escuro!

Que pessoa estúpida eu sou! Essa era a típica conclusão que eu extraía, de todos os pensamentos acima. Na melhor das hipóteses eu era um mimado, enquanto nas piores… Bom, digamos que, para manter a conversa em um nível palatável, eu me considerava um inútil, algo parecido com aqueles cabelos que ficam presos no ralo e só servem para entupir tudo. Um senhor desperdício para o que poderia ser uma bela cabeça (cabeluda).

Ah, como é fácil enveredar por esse caminho… Como era ilusoriamente prazeroso me colocar para baixo. Se nada dava certo, pelo menos eu conseguia me divertir um pouco às minhas próprias custas (e, entenda: eu sou muito fã de humor; agora, se existe um limite para tal arte, eu o via como um longínquo pontinho amarelo, lá atrás). Dentro da minha mente, fervilhavam comentários maldosos, julgamentos trucidadores e desejos obscuros de me autossabotar. De me ver sofrendo. Porque eu merecia. Eu era estúpido. Eu tinha tudo para ser alguém na vida, e, ainda assim, era essa ameba paralisada, perdida.

Eu sempre me esforcei ao máximo para passar longe do papel de vítima das circunstâncias. Porque, reforço, eu sempre soube que as circunstâncias estavam extremamente a meu favor. Por isso, ao invés de me colocar no papel de vítima, eu partia para a porrada – não contra ninguém lá fora, mas contra mim mesmo, aqui dentro.

A imaginação é um campo fértil. Ela pode ser usada para o que bem entendermos. E, até mesmo, para o que não entendemos…

Quantas não foram as vezes em que, por exemplo, eu me sentei em um glamouroso camarote, digno de grandes imperadores, e, com um sorriso irônico nos lábios, fiz aquele famoso sinal de desaprovação. Acabem com esse inútil; exterminem essa praga, eu ordenava. E os leões (todos eu) avançavam e me devoravam. Ou, no mínimo, me arrancavam alguns pedaços, me deixando ainda bem vivo, só para desfrutar mais e mais daquele merecido sofrimento.

Eu era e sempre fui meu maior algoz. Sabe os vilões das grandes histórias? Eu fui todos. Fui cada um daqueles seres cheios de ódio, de raiva, de mágoas. Aqueles que só querem tocar o foda-se, mandar tudo para o inferno, botar para quebrar. Eu queria ver o circo pegar fogo, queria ser um agente do caos – queria ter não um ás, mas um curinga na manga. Queria mudar tudo, absolutamente tudo, sempre na base da violência contra aquele ser estúpido que, por acaso, era eu. Fui cada um dos socos, dos chutes, dos tiros, dos feitiços proibidos e das gargalhadas diabólicas.

E fui também, claro, simultaneamente, em cada uma dessas situações, o herói caído, machucado, detonado. Fui o herói que quis desistir, que cansou de tentar, que já não queria mais se levantar. Para quê? Que diferença isso faria?

… Toda.

Faz toda a diferença quando percebemos que os vilões mais terríveis que podemos enfrentar estão dentro de nós. Pense nisso… Eu não quero que você acredite em mim: eu quero que você, de fato, pense nisso. Que analise essa possibilidade. Pense em como mudaria a sua percepção sobre tudo o que lhe acontece, se você descobrisse que o seu grande arquirrival é você – só você, e mais ninguém. Que diferença isso faria?

Agora, pense que, mais do que inúmeros vilões, você tem um herói dentro de si. Sim, um herói. Imagine isso; imagine que maravilha seria se todos aqueles grandes heróis, das melhores histórias – das mais emocionantes! –, existissem, apenas, dentro de você. Imagine o que você faria com toda essa coragem, toda essa força, todos esses poderes e qualidades inacreditáveis…

Imaginou?

Pensando assim, será que não faz uma bela diferença levantar depois da última surra? Afinal, quem mais poderia fazê-lo, se não você? Quem mais teria tamanha capacidade? Quem alimentaria tão inesperada ousadia? Quem se comprometeria a assumir um fardo tão pesado? Até porque, se os grandes heróis vivessem única e exclusivamente dentro de você, a quem caberia salvar o mundo de todos esses temíveis vilões?

… Pois é, o buraco é bem mais embaixo.

A Alice já nos mostrou que a toca do coelho é a porta de entrada para um país de muitas maravilhas – e insanos desafios. Agora, será que aquela terra mágica seria tão maravilhosa assim se não existissem os tais desafios? Será que o meu herói ainda seria um herói se ele não tivesse tomado tanta porrada?

… E será que, quando eu falo assim, citando um herói lutando com vários vilões, você sorri ou torce o nariz?

É, eu não estou ao seu lado enquanto você lê estas linhas, mas sei que, para os ouvidos de um adulto sério, sob os olhos zelosos da razão, esse papo todo pode soar bem infantil – praticamente uma historinha para boi dormir… E eu acharei ótimo se você pensar assim. Porque, insisto: eu não quero que, em momento algum, você acredite em mim. Que se deixe levar pelo meu falatório. Eu quero que você investigue. Quero que busque comprovações. Que experimente por conta própria. Quero que você se debruce sobre as minhas palavras e procure extrair apenas o que lhe servir delas. Apenas o que lhe fizer sentido.

… Porque, se um dia você se flagrar naquele beco sem saída em que tantas vezes estive, eu não estarei lá ao seu lado. Você estará só. Só você e os maiores vilões. Só você e aquele muro sem fim.

E, como eu também já disse, nessas situações, pouco importará as belas palavras (ou mesmo os mais fantásticos gestos) que qualquer outra pessoa tiver para lhe oferecer. Tudo será em vão, será um embrulho vazio – exceto se souber preencher com algo que faça sentido para você.

… Como essa história de herói e vilões faz sentido para mim.

Pense que, talvez, o motivo que me faça gostar tanto de histórias (sejam livros, filmes, séries, peças teatrais, causos, mitos etc.) é que elas ressoam fundo, aqui dentro. É que elas se comunicam com uma parte mais profunda, mais essencial – mais arquetípica. E o mesmo se aplica a você, com o que quer que lhe faça sentido.

Pense nas minhas histórias como um símbolo, uma casca, na qual você deverá encontrar os seus próprios significados (e sentido). A minha mente funciona melhor por meio dessas metáforas lúdicas, mas é possível que a sua não. E tudo bem. Talvez você prefira termos mais científicos, ou, quem sabe, transformar todas as questões em complexas equações a serem resolvidas. E está tudo bem. Talvez eu fale, aqui, de heróis, de deuses mitológicos, e você, ao pensar sobre o assunto, entenderá algo sobre o seu Self, sobre os preceitos religiosos que segue ou sobre a teoria das cordas. E continua tudo bem.

Não estaria tudo bem, entretanto, se eu tentasse lhe falar sobre a teoria das cordas. Aí, provavelmente, você não entenderia bulhufas. Como poderia, se eu mesmo não entendo lá muita coisa sobre o assunto? Até o momento, não tive a curiosidade de me aprofundar nessa área do conhecimento. Assim sendo, não sei manejar, com a destreza necessária para comunicar algo minimamente inteligível, os símbolos que ela possui. A teoria das cordas não faz parte do meu repertório, de forma que não sei fazer uso de suas ideias e conceitos para explicar o mundo à minha volta.

Agora, eu amo histórias. Histórias fazem meus olhos brilharem. Histórias me movem. Histórias me fazem querer levantar da cama – ou do chão gelado, depois de ter tomado algumas porradas dos meus vilões. E é por isso eu uso as histórias quando quero expressar a minha visão de mundo. Pode parecer bobo, eu sei, mas, talvez, a bobeira não seja um sinônimo de falta de seriedade. A bobeira, talvez, seja apenas um ingrediente da diversão – e da criatividade.

Talvez (eu acredito nisso) os significados mais arrebatadores só possam ser encontrados nas mensagens mais simples. Porque as mensagens mais simples não querem impor uma visão de mundo absoluta – e alheia à nossa. As mensagens mais simples não querem assumir o papel de verdades incontestáveis. Elas são símbolos. Símbolos que podem ser preenchidos com diferentes ideias ou conceitos, que nos façam mais (ou menos) sentido – um sentido que é único, para cada um de nós.

… E, para mim, não existe nada mais simples – e simbólico – do que uma boa história.

A questão (eu reforço) é que as minhas histórias não são iguais às suas. A história que lemos pode ser exatamente a mesma, com as mesmas palavras, e, ainda assim, por conta dos nossos repertórios distintos, absorveremos significados únicos dela. É como se as histórias fossem as letras de um alfabeto próprio, só meu ou seu. E, assim sendo, a grande barreira que teremos de enfrentar, aqui neste livro (e em qualquer comunicação que estabeleçamos com as demais pessoas) é sermos capazes de traduzir as mensagens desse meu alfabeto para o seu, a fim de conseguirmos nos comunicar de forma significativa.

Eu buscarei facilitar tão desafiadora tarefa usando diversos tipos linguagens, dentre aquelas que me são familiares. Só que isso, por si só, não basta. De nada adiantará meu empenho se você refutar tudo o que ler imediatamente, sem investigar dentro de si as possíveis correlações com assuntos que lhe despertam o interesse. Tampouco teremos êxito se, por outro lado, você aceitar tudo o que compartilho como uma verdade absoluta. Em ambos os casos, isso significaria, para mim, que você se contentou em ficar no raso, com medo de mergulhar, de saltar de cabeça e se molhar por inteiro.

E, me desculpe, mas o que é raso não me atrai. Não mais. Porque aquilo que fica na superfície é aquilo que me deixou, por anos, parado diante daquele beco sem saída. O superficial (que não se sabe superficial) é a tal caixa de presente sem nenhum presente dentro. É mais leve e pode até ser bem bonita, mas não muda nada na minha história. Não gera nenhuma grande emoção. Não me leva para lugar algum.

Por isso eu bato tanto na tecla do ceticismo, da análise própria. Por isso eu sempre vou relembrar esse ponto, de novo e de novo: não porque eu sou bonzinho e/ou quero dizer a coisa mais politicamente correta. Nada disso. É porque essa é uma questão fundamental, uma que dá sentido para tudo em nossas vidas. E porque nós fomos educados, desde de sempre, a obedecer, a sermos capachos. A nossa própria linguagem foi moldada para valorizar os seguidores, as ovelhinhas, não os líderes e os criadores. Somos criados para ver quem se sacrifica pelos outros como bonzinho; e quem fala de suas próprias necessidades como egoísta – sem meio termos. Para mudar isso, precisamos começar a explorar mais a fundo. Mastigar tudo com atenção redobrada. Concordar ou discordar do que nos dizem – o que for melhor para cada um de nós a cada novo instante.

Por isso, por favor, vá além das cascas. Experimente os frutos que existem debaixo delas. Aproveite tudo o que encontrar aqui ao máximo. Faça isso por você, não por mim. Se for para obedecer, obedeça a sua própria essência, não a mim ou a qualquer outro. O que você faz com a sua vida, afinal, afeta muito – mas muito! – mais você do que todas as pessoas à sua volta.

Eu dediquei os últimos anos da minha vida para chegar até o ponto em que estou agora, escrevendo estas palavras, nas páginas deste livro. Eu considero isso um presente – o maior presente que, no momento, consigo lhe oferecer. E isso, por si só, já faz muito sentido para mim. Já me preenche.

O que você fará com ele diz respeito apenas a você. Se será realmente um presente, ou apenas tempo jogado fora, só você poderá responder.

Agora, aproveitando o gancho, deixo aqui (mais) uma provocação: se você imaginar que tudo o que recebemos dos outros (e da vida) são caixas de presentes vazias, o que você anda colocando dentro das suas? Você consegue preencher cada uma dessas caixas com algo significativo, ou só se contenta em seguir abrindo várias, procurando algum presente palpável – algo que possa ser visto como uma verdade inquestionável? Você consegue, ao abrir cada uma dessas milhares de caixas que recebe diariamente, criar um presente mais valioso do que aquele que tinha antes? Ou continua imóvel, no mesmo lugar?

Se você parar para pensar, as perguntas que eu formulo, as palavras que escolho – e tudo mais o que faço – servem como pistas sobre como a minha mente funciona. E, no meu caso, o tempo todo estou em busca de novas conexões. Afinal, eu enxergo que tudo está conectado.

… Na pior das hipóteses, aliás, eu penso que tudo, no mínimo, pode estar conectado.

Deixe-me dar um exemplo. Imagine uma pessoa que acredita que o vermelho é a melhor cor do mundo. Agora, imagine que essa pessoa, fã incondicional do vermelho, encontra uma pessoa que ama o azul. Elas, pessoas civilizadas que são, tentam engatar uma conversa sobre suas preferências. A primeira, claro, fala do porquê ela entende que o vermelho é a melhor cor do mundo. A segunda, por sua vez, explica todos os motivos que a fazem crer que o azul é que é digno de amor. O papo avança e, obviamente, nenhuma delas cede – afinal, para elas, não faria o menor sentido ceder! Elas têm inúmeros argumentos para defender seus pontos de vista, suas paixões e crenças. Seria estupidez mudar, neste caso. O outro que ceda, eu sei do que estou falando!

… O que acontece, então?

Essas duas pessoas brigam, certo? Provavelmente, começarão, com o tempo, a alimentar um ódio ferrenho entre si. Quererão passar longe um do outro, uma vez que suas preferências não têm nada a ver com a do coleguinha. Julgarão que não poderiam estar falando línguas mais distintas entre si.

Neste caso, não é nenhuma loucura imaginar que essas duas pessoas chegarão à conclusão de que não existe nenhuma relação possível entre elas. E elas se afastarão (ou, nos casos mais trágicos, se matarão).

Agora, se a minha teoria mirabolante estiver certa, existe uma conexão entre elas. Ou, no mínimo, poderia existir. Mas como? Como duas pessoas tão diferentes poderiam estar conectadas, se relacionando? Como a água e o óleo poderiam habitar o mesmo copo, se eles não se misturam de jeito algum?

A meu ver, bastaria, para tanto, que elas quisessem se enxergar como conectadas. E pronto. Elas estariam.

… Sim, é simples assim. Como poderia não ser?

Tudo depende, primordialmente, da vontade delas de estabelecer (ou, mais simples ainda: só perceber) essa conexão. De se relacionarem. De se enxergarem próximas, juntas, ao invés de separadas e distantes.

Sim, porque pouco importa que uma goste mais do vermelho e outra do azul. Eu mesmo acharia uma grande besteira a água querer deixar de ser água só para ficar mais parecida com o óleo e eles conseguirem, assim, se misturar. Isso não faria o menor sentido para mim. Afinal, eu acredito que é justamente aquilo que torna eles tão diferentes que faz com que ambos sejam valiosos e importantes. É o que torna tanto a água quanto o óleo únicos. É o que dá sentido para a existência de cada um.

Claro que as conexões feitas por meio de grandes afinidades são deliciosas e imprescindíveis para o nosso bem-viver. Eu gosto de laranja e, felizmente, existem outras milhares de pessoas que também gostam. E é com elas que eu tendo a me socializar mais. E, uma vez que são conexões mais fáceis de assimilarmos, são elas que nos mostram o poder de criarmos relações. Elas abrem o caminho para um entendimento mais profundo de como funciona esse treco que costumamos chamar de vida. Afinal, aprendemos, nos protegemos, rimos, contamos histórias, sentimos prazer, amor e fazemos tudo o que dá sentido para nossas existências a partir dos relacionamentos que alimentamos.

Se tivéssemos de fazer um esforço tremendo para estabelecer toda e qualquer conexão que pretendemos, a vida seria muito complicada. Seria fácil concluirmos que qualquer gasto de energia nesse sentido não valeria a pena. Seríamos individualistas ao extremo. Seríamos um bando de egoístas que só pensa no próprio umbigo. Viveríamos isolados, habitando um… beco sem saída.

Agora, imagine o que seria da sua vida se você percebesse que qualquer conexão pode ser facilmente estabelecida (pelo menos no que diz respeito a você, ao seu lado – e respeito é uma palavra significativa para a criação dessa percepção; para a abertura dessa via de mão dupla)? Talvez, justamente aquilo que nos torna mais diferentes – e únicos – pode servir para criar a mais poderosa de todas as conexões?

E se eu lhe dissesse que basta você querer para criar essa realidade? Que basta você saber aproveitar os presentes que a vida e os outros lhe dão? Será que ainda existiriam, nesse caso, becos sem saída?

… O herói que existe dentro de mim me diz que não.

Ele me conta que, em um mundo onde tudo e todos estão conectados, mesmo uma parede de tijolos pode ser uma passagem secreta para um mundo incrível e mágico.

Basta, para tanto, saber quais tijolos devem ser acionados. Basta trabalhar com as ferramentas certas (mesmo que, no seu caso, isso signifique usar um guarda-chuva ao invés das tradicionais varinhas mágicas). Basta entender que as chaves estão espalhadas por todos os lados, ao menos para quem souber enxergar; quem souber ir além da superfície.

O que aconteceria, por exemplo, se aquelas duas pessoas, uma que prefere o vermelho e a outra que ama o azul, resolvessem pensar que, acima de tudo, elas são duas pessoas? Duas pessoas que gostam de cores? Duas pessoas que gostam de cores e que extraem muito sentido, para suas vidas, das cores que gostam?

… Já deu para entender o que estou querendo dizer, sim?

As conexões estão aí. Ou, no mínimo, podem estar, para quem quiser enxergar.

E foi esse o meu trabalho, nos últimos anos. Foi buscando cada vez mais conexões que cheguei ao sistema que compartilho com você neste livro. Um sistema que funciona para mim e que, espero, possa ser de algum modo útil para você. Para que descubra o seu próprio sistema; a sua própria linguagem. O seu herói…

E, veja bem: eu falei em sistema. Porque, para mim, sistema é algo aberto, orgânico, mutável. Um sistema permite sempre novas conexões. Um sistema permite que qualquer área do conhecimento seja integrada ao que veio antes – tornando-o mais complexo e íntegro.

Na minha cabeça, o sistema é como uma floresta, que comporta as mais distintas formas de vida. Uma floresta em que cada ser vivente é uma parte de algo maior e um todo em si mesmo. E, quando algo muda, o restante se adapta, se fortalece, buscando um novo equilíbrio. Podemos encontrar infinitas trilhas dentro dessa mata fechada; trilhas fundadas com os nossos próprios passos. Entretanto, nós nunca encontraremos um trilho fixado no chão por lá. Porque não existem trens expressos que cruzam aquela paisagem.

Um sistema, afinal, não é um método. Método, para mim, é algo mais rígido, mais direcionado. Métodos trabalham com fórmulas e sequências obrigatórias (ou, no mínimo, desejáveis). Métodos valorizam o aprendizado por meio de um passo a passo pré-estabelecido.

Peguemos, para explicar melhor essas diferenças, o teatro, que é outra de minhas linguagens favoritas. De acordo com o meu entendimento, quando trabalhamos em cima de um método por lá, tendemos a querer marcar as ações e o texto. Queremos decorar as falas, queremos mostrar no nosso corpo as características físicas de cada personagem. Enrijecemos as formas, a fim de mantermos a estrutura de uma montagem em pé. Neste caso, o que é vivo no ator ou na atriz deve se manifestar a partir de um conjunto orquestrado de antemão.

Já quando exploramos um sistema, trabalhamos com linhas de ação. Sabemos o quê precisará ser cumprido (as tarefas de cada papel e a supertarefa da apresentação como um todo), porém, não fixamos o como isso será feito, de fato. Existe uma ordem já criada, sim (que pode vir de um texto, de um diretor ou mesmo de uma vontade coletiva, de vários elementos unidos), só que os meios para se chegar a ela continuam sempre em aberto. Eu preciso, por exemplo, dizer que eu amo meu gato preto. Um dia posso estar na ponta do palco; no outro, no fundo. Um dia posso estar coçando a cabeça; no outro, deitado no chão. O o quê está sempre presente, ainda que o como possa se alterar.

E, por experiência própria, essas duas maneiras de trabalho funcionam. Cada um delas, claro, exige diferentes habilidades e disposição para encarar seus desafios singulares. Não cabe a mim tentar dizer se uma é melhor do que a outra. Cabe a mim, sim, contar que eu já testei as duas e, sem dúvidas, prefiro trabalhar com um sistema, muito mais do que com um método. Eis o que faz mais sentido para mim.

Por isso, foi assim que eu estruturei o conteúdo que encontrará neste livro: como um sistema. Um sistema que não estabelece um passo a passo obrigatório. Todas as partes são partes de algo maior e um todo por si só. Todas elas podem se conectar, sempre, de modos distintos.

Pode parecer meio complexo, falando assim por cima, mas não é. É totalmente complexo. Não à toa, foi isso o que fiz nos últimos dez anos da minha vida. Sim, dez anos; dez anos dedicados a algo que eu nem sabia no que iria desembocar. Fiz porque fazia sentido. Porque eu amo estudar – esse, certamente, é um dos meus pontos mais fortes, uma das qualidades que sempre contribuiu para o meu avanço.

Agora, eu só sinto prazer em estudar, qualquer coisa, de qualquer área do conhecimento (vulgo, teoria das cordas, me aguarde), quando consigo fazer essa tradução do alfabeto dos outros para o meu. Se eu tentar estudar algo que não faça muito sentido para mim, será uma tarefa enfadonha. Será só mais um daqueles livros obrigatórios que tenho que ler para passar no vestibular – livros que devem ter conteúdos realmente extraordinários dentro de si, mas para os quais não possuo as chaves simbólicas.

… E, aí, ler é só ler. É só um virar de páginas mecânico, sem graça, vazio.

Obrigação cria escravos. Diversão liberta.

Este é um dos meus lemas – se é que eu tenho algum. A obrigação faz com que cumpramos tarefas, só por cumprir. Se somos obrigados, fazemos porque temos que fazer. Porque não vemos outra saída. A obrigação, portanto, me parece ser o pai dos becos sem saída. Se você age porque é sua obrigação agir assim, então, cedo ou tarde, irá se deparar com o fim da linha – mesmo que este fim seja o glamouroso camarote de uma das construções mais valorizadas pela nossa sociedade.

A diversão, em contrapartida, é aquilo que cativa. Que instiga a curiosidade. Que nos faz querer naturalmente mais. Ela não precisa forçar nada. Ela pode até exigir um grande esforço; porém, é um esforço que, lá no fundo, nos relaxa, nos alivia. Não é algo que nos angustia, que nos sobrecarrega e enrijece; é o que nos torna mais presentes, mais atentos e dedicados. Quando nos divertimos, estamos dispostos. E, dispostos, nos relacionamos de forma diferente (mais lúdica, talvez?) com o conhecido e o desconhecido. O que sabemos já não basta; queremos ir além. E, querendo – procurando –, encontramos novos significados para as nossas palavras; criamos conexões mais complexas; pensamos em saídas inusitadas. A diversão abre portas que não pareciam estar lá antes – o que pode ser bem útil diante de um beco sem saída. A diversão é a mãe dos criadores; aqueles indivíduos que não se contentam em serem só criaturas (forjadas por outrem) ou criados (comandados).

E este é um livro para eles. Para todo e qualquer criador de sua própria realidade. Todo e qualquer criador de sua própria linguagem. Todo e qualquer criador de sua própria história.

… Para eles, que eu, carinhosamente, apelidei de Criadores do Agora.

 

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