Capítulo 1 – História

Adivinha só: eu acredito que tudo é uma história. Uma história única. Apenas uma história. Sabe o que você chama de realidade? É uma história. Sabe as pessoas que vivem à sua volta? Elas são uma história. Sabe o seu animal de estimação? Pois é, ele também é apenas uma história.

E, entenda: ser apenas uma história não é demérito algum. É o que é e ponto, sem julgamentos. Não quero menosprezar ninguém. Tampouco quero endeusar alguém. Eu só, quando penso no mundo, enxergo tudo como se fosse uma história.

Uma. Apenas uma história. Uma grande história da qual todos nós, seres viventes, fazemos parte. Somos histórias dentro de uma história (e haja metalinguagem para dar conta de explicar isso!). Somos partículas dessa história maior. Nós e tudo mais o que existe. Tudo o que é conhecido e tudo o que é desconhecido para nós. Tudo cabe dentro dessa grande história.

… Sabe o que muitos chamam de Deus? Então, eu chamo de grande história.

Eu gosto de pensar nesses termos porque isso me desperta um estado mais fluido. Deus, para mim, é uma palavra carregada de símbolos religiosos. É um termo que já me puxa a imagem de um velhinho barbudo sentado no topo de uma montanha. E tudo bem ser assim. Essa imagem, afinal de contas, faz parte da minha história pessoal. Só que eu precisava de algo que me permitisse avançar; algo que me possibilitasse extrapolar tal imagem e experimentar estados diferenciados dessa energia, menos antropomorfizados. Estados em que tudo se conecte de um modo mais natural, mais simples e espontâneo; sem ordens obrigatórias, sem mudanças bruscas.

Eu precisava encontrar uma metáfora mais condizente com a minha visão atual de mundo. Com o meu entendimento de como as coisas funcionam. Para mim, afinal, um velhinho barbudo onipotente, onipresente e onisciente dita métodos. E, de novo: nada contra isso, pelo amor de… Essa imagem só não fazia mais sentido para mim. Eu precisava de algo novo, mais meu, mais aberto – segundo os meus parâmetros.

E por mais trivial que isso possa parecer, a princípio, a metáfora que escolhemos para explicar a nossa vida é coisa séria. É um ponto muito delicado. É, entretanto e infelizmente, um tesouro deslumbrante confundido com um bagulho qualquer. É uma agulha em um palheiro. Um treco relegado à margem, descartado como só mais um pensamento; ou algo que, na melhor das hipóteses, passa completamente despercebido. Pois é… Tendemos a desvalorizar ou, no mínimo, subvalorizar esse tipo de ideia (metafórica), porque ela parece bobinha.

… E nada poderia ser mais injusto – injusto com você, que se torna um indivíduo privado dos poderes de uma bela metáfora, bem escolhida, no lugar certo e na hora certa.

Quer ver só?

Imagine o seguinte: você se levanta todos os dias com a imagem fixa na mente de que o mundo é um grande campo de batalha. Você se arruma pensando nisso, você come pensando nisso, você interage com as outras pessoas pensando nisso – você, enfim, vive pensando nisso. O mundo é um grande campo de batalha. A vida, lá fora, é uma guerra. Uma guerra. Afinal, todos temos nossos interesses individuais. Todos temos que saber defender o que é importante para nós. Todos temos que saber atacar para conquistar cada vez mais território. Todos temos armas que usamos para superar os outros. Todos temos aliados e inimigos. E todo aliado pode virar um inimigo. Por isso, devemos estar sempre com a faca entre os dentes. Devemos estar preparados para matar um leão por dia. Devemos ser conquistadores, para não sermos conquistados.

… Imaginou? Guarde, então, as sensações de como é viver nesse tipo de mundo.

E, agora, imagine outro cenário: você se levanta todos os dias com a imagem fixa de que o mundo é uma maravilhosa festa. Tudo, absolutamente tudo o que você faz é pensando em uma festa. Para onde quer que você olhe, existem pessoas especiais, amigos e familiares com quem você quer compartilhar estes belos momentos. Cada encontro é digno de um brinde, de um sorriso, de uma recordação. Você recebe presentes a todo instante. Você come e bebe tudo do bom e do melhor. Você dança quando dá vontade. Você grita quando dá vontade. Você comemora quando dá vontade. Você está sempre no pique para mais agito, mais farra, mais festa! Festa, festa, festa! A vida é maravilhosa e você está aproveitando tudo ao máximo!

… E aí, como é que você se sentiu imaginando esta segunda metáfora?

Existe alguma diferença entre a primeira e a segunda? Se você for como eu, é muito nítido que sim. A diferença é extrema, quase palpável (e, se não for, talvez seja uma boa ideia repensar as festas que você tem frequentado). E essa distinção toda se deve, quase que exclusivamente, à metáfora que escolhemos utilizar para descrever a vida.

É importante frisar que, uma vez mais, não estou dizendo que a segunda metáfora é melhor do que a primeira, ou vice-versa. Esse tipo de comparação seria, no mínimo, irresponsável da minha parte. Primeiro porque eu estaria falando com base, apenas, em um gosto pessoal. E, quase sempre, quando falamos de gostos, estamos mais perto da superfície do que da investigação profunda. Ou seja: gosto é gosto e não se discute – para não perdermos tempo com coisas tão inexpressivas. Pouco importa se eu gosto mais de vermelho, azul, verde, lilás ou cinza. Importa, aqui, para nós, que entendamos o que significa estudar toda a escala de cores.

Em segundo lugar, notem que eu sugeri, nos dois exemplos anteriores (guerra e festa), que você alimentava uma imagem fixa dentro de si. Ou seja: você estava operando na chavinha do ou. A vida é ou uma guerra ou uma festa – ou o que quer que seja. Mas é só uma coisa, nunca outra. É uma imagem, fixa. E isso me parece uma forma de pensar bem restritiva – e extremista. Eu prefiro, portanto, utilizar a chavinha do e. Porque sempre existirão momentos em que a vida pode ser uma festa. E outros em que parecerá mais uma guerra. Podemos, neste caso, transitar livremente entre várias metáforas. Podemos combiná-las, podemos subvertê-las, podemos reinventá-las. Podemos tudo, inclusive brincar com metáforas que consideramos opostas. Estamos, afinal, falando de um sistema – um sistema todo seu, regido pela sua vontade mais essencial e nada além.

Julgo que seria inocente demais, da minha parte, querer defender o contrário – vulgo querer convencer alguém de que a vida sempre será bela ou feia; doce ou amarga; cheirosa ou fedida. Uma festa ou uma guerra. A maioria de nós bem gostaria de ficar só com as opções mais bonitinhas, mais agradáveis – o meu lado idealista que o diga. Porém, às vezes, precisamos, sim, sacar da mochila uma metáfora mais parruda, mais intensa. E tudo bem. O diferencial, nesses casos, é termos consciência de que estamos agindo de acordo com esse tipo de metáfora. É entendermos que, enquanto estivermos no controle de nossa própria mente, teremos sempre o poder de escolher quais ferramentas são as mais adequadas para utilizarmos a cada novo instante.

Se estou, por exemplo, alimentando uma mentalidade de guerra, talvez não seja o melhor momento para discutir a relação com minha parceira. Talvez não seja a hora de ficar pensando no que eu poderia ter feito quando aquela pessoa lá me olhou meio torto. Talvez não seja a maneira mais proveitosa de preparar a pauta daquela reunião super importante em que darei o feedback para a minha equipe de trabalho.

Agora, imagine uma bombeira que recebe um chamado para entrar em um prédio em chamas e salvar um garotinho. Será que funcionaria optar por uma mentalidade de festa? Ou será que, nesse caso, a mentalidade de guerra não soa mais adequada?

É tudo uma questão de saber escolher. De entender que, para escolher, você precisa conhecer os elementos que estão na mesa, à sua disposição. Quanto mais você conhece, mais ampla será a sua gama de escolhas. Alguém que só conhece a cor amarela não consegue escolher o marrom de vez em quando. Nem o rosa. Ele só conhece o amarelo; e o amarelo, portanto, é a melhor escolha do mundo – não porque isso é uma verdade absoluta; mas porque é a única opção disponível.

… Eu estou sempre limitado pelo universo que já conheço – o desconhecido não existe para mim.

As metáforas, portanto, são uma das ferramentas mais potentes que temos dentro de nossas mentes. Elas são a forma como escolhemos descrever o mundo ao nosso redor. E isso é crucial. Afinal, nós não descrevemos, dentro de nós, o mundo que vemos, lá fora. Nós vemos, lá fora, o mundo que descrevemos, dentro de nós.

… Deu para entender? Ou rolou um nó?

Vou (tentar) simplificar: a descrição que fazemos do mundo condiciona a nossa percepção da realidade. A forma como eu descrevo, para mim mesmo, uma pessoa, por exemplo, afeta a maneira como enxergarei e lidarei com ela. Se eu disser que ela é simpática, doce, engraçada, tenderei a ser bastante agradável no nosso convívio. Agora, se eu afirmar, mesmo que apenas mentalmente, que ela é egoísta, sem noção, folgada, a minha maneira de agir diante dela será bem diferente. Ou seja: eu criei uma pré-disposição para interagir de um modo ou de outro a partir das palavras que utilizei para descrevê-la (e rotulá-la).

Nenhum de nós, em momento algum, consegue ser absolutamente imparcial. É impossível. O nosso reservatório de experiências (vulgo repertório) está sempre presente, influenciando nossas ações, opiniões, crenças e preferências. Assim sendo, você não consegue ter uma opinião isenta e imparcial nem sobre uma árvore. Pois, mesmo no instante em que uma nova árvore é percebida – passando a existir em sua vida, tornando-se conhecida –, a sua experiência diante dela já foi influenciada por todas as outras árvores que você conheceu antes (e por todas as percepções que teve perante qualquer coisa que lembre remotamente aquela árvore). Ou seja: o repertório que acumulou, até aquele momento, determinará as opções que você tem à sua disposição para escolher como vai descrever aquela nova árvore.

Eu posso olhar para uma árvore e enxergar um quadro digno de ser pintado por um impressionista. Você, olhando para a mesmíssima árvore, pode enxergar uma casa magnífica para um passarinho cujo canto você adora. E uma terceira pessoa pode ver apenas um tronco de madeira que daria uma bela mesa. Quem está certo? Quem está vendo algo mais real?

Nós pensamos e nos comunicamos por meio de símbolos. Não fossem os símbolos, estaríamos encarcerados dentro de nós mesmos – em nossas cavernas, nossos becos sem saída. Palavras, não à toa, são sinais gráficos que transmitem ideias, conceitos concretos e abstratos. E o seu padrão de linguagem influencia, até, a forma como você processa as imagens, os presentes oferecidos pelo mundo.

Pois é…

As palavras que escolhemos utilizar para descrever o mundo à nossa volta criam a nossa realidade. A forma como descrevemos as pessoas influenciam a forma como escolheremos agir perante elas. Portanto, o tempo todo, nós estamos criando profecias autorrealizáveis.

Você acredita, por exemplo, que um colega de trabalho tem falado mal de você pelas suas costas. De repente, você percebe que ele está perto da máquina de café, conversando com outro membro da equipe. Seus olhos se cruzam por um breve instante. Em seguida, seu colega fala alguma coisa, baixinho, para o amigo, e eles imediatamente caem na gargalhada. O que aconteceu nessa situação? O que ele disse? Você sabe? Tem certeza? Não, claro que não – mas você acredita fortemente que sim. E, por isso, você se levanta e vai até a máquina de café. Por mais que não tenha escutado, de fato, o que ele disse, você resolve distribuir umas patadas. Você aproveita que ele derramou um pouco de café na gola da camisa e o chama de porco, de desleixado. Você sai, triunfante, e volta para a sua mesa. E o que o seu colega faz agora? Tcharã… Ele, que antes estava fazendo uma piada sobre o gosto ruim do café, começou a falar mal de você.

… Profecias autorrealizáveis.

Aquele que não compreende o poder que existe nas palavras (e, indo além, nas histórias, nas metáforas, nos símbolos, nos pensamentos, nas emoções), é alguém que se deixa dominar por elas. É uma criatura, vendo sua vida ser forjada por fontes desconhecidas e misteriosas. É um criado, servindo aos desígnios de seus vilões interiores – ou aos desejos impostos por espertalhões que existem aos montes lá fora…

Afinal, se você não assume o controle do navio, alguém tem que fazê-lo por você, certo? Não dá para ficar velejando por aí, a esmo, sem ninguém na cabine. Se você prefere não assumir o comando de sua própria mente (e vida), alguém o fará em seu lugar.

Não existe neutralidade. Não existe imparcialidade. O observador sempre influencia o que está sendo observado. As suas palavras, seus pensamentos, suas emoções e suas ações criam a sua realidade. Agora, me diga: o quanto do que você pensa é realmente seu? O quanto os sentimentos que alimenta e as ações que concretiza correspondem àquilo em que você realmente acredita? Àquilo que faz, de fato, sentido para você? O que foi incorporado à sua noção de identidade com consciência, de propósito, e o que foi absorvido de qualquer jeito, só porque você estava lá e não tinha nada melhor para fazer?

… Complicado, né?

É, ninguém falou que seria fácil caminhar no meio da floresta. É preciso coragem. É preciso conhecer as ferramentas que você anda carregando consigo, para cima e para baixo. Não faria muito sentido passear por aí sem saber o nome e para que serve cada um desses utensílios que já estão dentro de você.

E é isso: você precisa saber dar um nome para eles, antes de poder invocá-los. Precisa saber para que eles servem, antes de poder utilizá-los. E precisa saber que eles existem, antes de poder fazer tudo isso.

A boa notícia é que, mesmo que você nunca tenha pensado em nada disso, sempre dá tempo de começar. E, fazê-lo, não precisa ser algo chato, enfadonho, desgastante nem nada do tipo. Exigirá esforço, dedicação e disciplina, sim; mas quem disse que isso tudo não pode ser divertido? Tudo depende, claro, das palavras e metáforas que você vai escolher quando for pensar sobre esta jornada. A jornada para assumir o controle da sua mente, da sua vida…

… Da sua história.

Sim, porque, para mim, tudo é uma história.

Existe uma grande história, da qual todos nós fazemos parte. Somos participantes dessa história maior; uma história que compartilhamos com todos os seres viventes. Tudo o que todos nós fazemos escreve novas linhas e novos capítulos dentro dessa história universal. Somos personagens, somos cenários, somos trilhas sonoras, somos tramas, somos tudo o que compõe tão grandiosa obra de arte.

E somos, ao mesmo tempo, histórias únicas e individuais. Histórias com mundos próprios, ideias próprias, vontades próprias. Histórias que fazem sentido por si só. E cujo sentido, quando revelado, engrandece o sentido da grande história como um todo. E vice-versa (o que está dentro é similar ao que está fora. O que está acima é similar ao que está abaixo).

… Compliquei?

Então, vamos com calma. Vamos por partes. Falemos, apenas, por ora, das histórias individuais que somos e estamos criando. Deixe, por enquanto, a grande história para lá. Mais para frente voltamos a pensar nela (ou não. A ordem que propus, aqui, é, meramente, para facilitar a compreensão. É o caminho que imaginei ser o mais lógico em termos de didática. Entretanto, uma vez que este livro foi pensado como um sistema, você pode escolher investigar o macro antes do micro. E tudo bem. Basta, para tanto, vasculhar por conta própria aí no livro, criando a sua própria ordem).

Antes de mergulharmos em algo tão maior, vamos observar mais de perto a história das nossas vidas. A história que cada um de nós está contando, neste exato instante – e em todos os outros – para si mesmo. Que história é essa? Qual é a história da sua trajetória até aqui? É um drama? Uma comédia? Uma trama intrincada de terror? Um suspense? Uma ficção científica? Uma bela porção de fantasia? É um pouco de tudo; tudo junto e misturado?

Talvez a resposta para essas perguntas seja meio complicada. Talvez já esteja na ponta da língua. Tudo vai depender, claro, do estágio em que você está na construção da sua história. E vai depender de quem está em foco quando você pensa nisso tudo. Vai depender de alguém que é, sim, você e ao mesmo tempo não é. Porque você é mais do que esta entidade de que falo. Você é ela e também tudo mais.

… Só que esta parte sua tende a querer ser mais aparecida que todo o resto junto.

Afinal, este ser acredita piamente que o mundo gira ao redor do seu umbigo. É o que eu chamo de Protagonista…

 

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Continuar lendo em: Protagonista, Vencer o JogoArco Narrativo

 

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