Capítulo 4 – Arco Narrativo

A teoria sobre o nós não sabemos nada é linda e maravilhosa, não é não? Agora, será que essa ideia é realmente viável? Será que é factível que nós vivamos a nossa vida assim, em meio a tantas incertezas? No dia a dia, será que esse espaço do não saber é uma possibilidade, de fato, ou isso é só mais uma coisinha bonitinha para aprendermos a dizer da boca para fora? Será que é exequível ou só mais uma churumela conceitual para nos iludirmos? É praticável ou é só mais uma frase de impacto para estamparmos em camisetas e vendermos como uma imagem cool, enquanto passeamos nos shoppings centers da vida?

… Eu posso, por exemplo, ser um arquiteto, uma engenheira, um médico, uma advogada etc. que não sabe de nada?

Sim e não.

Sim porque nós já vivemos o tempo todo desse jeito, segundo a minha crença pessoal. E não porque, ao mesmo tempo, nós alimentamos falsas noções de certeza para nos ajudar a avançar em nossas jornadas.

Explico: sim porque, qualquer que seja a sua profissão, você, no mínimo, nunca sabe tudo. Por mais que você acredite que saiba muita coisa, é prudente que você entenda que não sabe tudo. É inteligente da sua parte alimentar a noção de que todos os campos do conhecimento se expandem continuamente. Que a tecnologia e as teorias avançam, se tornam mais complexas, mais profundas. Você é um médico que hoje receita um tipo de tratamento para determinado quadro clínico, mas que amanhã descobre que existem alternativas mais eficazes. Você é uma engenheira que sempre fez seus cálculos seguindo determinadas fórmulas, mas que um dia descobre uma matemática ou uma ideia quântica que permite desafiar as mais consagradas leis da física.

Tudo sempre muda. Tudo está em constante transformação. Nada está parado. Nada é fixo, absoluto. O não saber não é uma privação de conhecimentos. Não é desdenhar dos conceitos já existentes e aprendidos. É só o não se deixar limitar por eles. Não se apegar a certas ideias, por toda a eternidade.

… O espaço do não saber é tomar consciência de que você não é só o seu passado. Você sempre pode ir além. Pode se expandir. Pode evoluir. Pode mudar. E aprender.

Por isso eu respondi sim. Entretanto, eu também respondi não – que não é possível viver em um mundo de absolutas incertezas. Porque, por mais belo que seja esse espaço silencioso, é natural que nós nutramos ideias, opiniões, convicções e crenças dentro de nós. Nós não conseguiríamos crescer se todos os nossos passos fossem cercados pela sensação de dúvida, de medo, de perigo. Nós precisamos inventar uma lógica para sustentar nossas teorias. Para nos dar confiança de que é possível caminhar. De que é possível tramarmos nossas próprias histórias. Afinal, se todos os fios estivessem soltos; isolados uns dos outros o tempo todo, ainda estaríamos encolhidinhos, no escuro, dentro de alguma caverna por aí.

… Aliás, possivelmente, nem isso: é provável que nós nem estivéssemos mais aqui, vivendo.

Lembre-se: nós precisamos de padrões. Precisamos poder acreditar em algumas supostas verdades. Precisamos das nossas lógicas, nossas crenças. Precisamos dos nossos aprendizados.

… Nós só não podemos nos reduzir a eles.

Não podemos permitir que nossos sentimentos de certeza nos controlem. Que nos impeçam de mudar de opinião. De visitar novas ideias. De criar crenças mais funcionais. Verdades mais coerentes. Convicções mais convincentes. Aparatos de apoio mais instigantes e fortalecedores.

A liberdade, afinal, não advém da ausência total de vínculos. Ela é a conscientização de que nós podemos escolher os vínculos que queremos estimular. Nós temos o poder de decidir com o que iremos nos comprometer; e, tendo firmado o acordo, tomando-o como guia, agimos para cumprir com o que foi acertado (meu amor, disciplina é liberdade). Assim, uma vez cumprida a tarefa, podemos, de novo, nos libertar de quaisquer amarras autoimpostas, quaisquer obrigações assumidas por livre espontânea vontade. Não precisamos mais continuar vestindo-as – porque já honramos o combinado. Já não podemos ser cobrados de nada. Aí, estamos livres. Livres para fazer novas escolhas. Para criar novos vínculos.

Portanto, o dia em que juramos amor eterno às nossas crenças, é o dia em que passamos a correr o risco de viver arrastando cadáveres atrás de nós (ou, talvez, o dia em que nós mesmos nos tornamos zumbis, que vivem se arrastando pelos cantos). Porque, ué, como nós, as ideias nascem, crescem e morrem. Elas não foram feitas para a imortalidade. Seus corpos frágeis não aguentam. Elas precisam, constantemente, de renovação. De inovação.

As ideias são como o fogo. Surgem em uma fagulha, vívida e ainda bem fugidia. Conforme a alimentamos, podemos fazer maravilhas, antes impensáveis. Desde que as controlemos. Desde de que não deixemos que escapem e se alastrem por conta própria. Caso contrário, nossa bela e acalentadora fogueira se torna um incêndio. Um que há de queimar, inadvertidamente, tudo que encontrar pelo caminho. Tudo, até que só restem cinzas.

Se, mesmo tendo a visão obscurecida e os ouvidos tampados, nos sentirmos confortáveis dentro do abraço musculoso de nossas crenças – só porque já nos afeiçoamos a elas; porque elas parecem tão protetoras e seguras –, corremos o risco de deixar que essa interpretação momentânea da realidade vire uma corrente. Uma daquelas que vem com uma bola de ferro acoplada, e que se encaixa tão bem em nosso tornozelo. Ao invés de ser algo que nos ajuda a dar o próximo passo, rumo ao desconhecido, o senso de certeza se torna, assim, um lastro. Uma âncora.

Ok. Isso foi figurativamente pesado. Mas e daí? O que fazemos com isso? Partindo do pressuposto que todos esses exemplos fizeram sentido, neste momento, como a gente lida com o sim e o não? Como atuamos no meio de campo entre o conhecer e o não saber?

Minha resposta atual: adotando receptáculos recicláveis. Alimentando crenças e convicções ecologicamente sustentáveis.

… Nossa, hein? Que nome bonitinho e politicamente correto!

Sim. Só que não é só um nome. É um ideal. É uma crença almejada. Uma crença que continuo a perseguir, todos os dias – porque ela nunca pode ser alcançada em definitivo. É um ideal que me instiga a buscar continuamente a compreensão desses ciclos de vida – das ideias e dos seres que se apossam delas. Porque, se existe mesmo tal semelhança entre nós e as nossas ideias; se tudo nasce, cresce e morre, nós podemos aprender uns com os outros. Podemos descobrir sempre novas maneiras de lidar saudavelmente com essa existência transitória. Podemos aprender a extrair o melhor dos dois mundos – do sim e do não; do que acreditamos estar vivo e do que parece estar morto.

Por isso, brincadeiras à parte, faz toda a diferença quando entendemos que a sustentabilidade não é só uma ideia politicamente correta. Ela é isso e é mais. É uma vontade de tornar algo mais sustentável, oras! De oferecer condições para que as pernas sustentem da melhor maneira possível os corpos que têm de carregar por aí. De permitir que, a partir de uma base forte e saudável, tudo passe a funcionar melhor. A se movimentar com mais liberdade, mais dinamismo. Com mais fluidez. Porque, aí, o curso dos eventos pode começar a correr com o mínimo de atrito. A linha de ação pode encontrar a máxima harmonia, enfrentando os menores ruídos.

… Sustentável (aqui) quer dizer, simplesmente, ter os apoios certos, nos lugares certos, nas horas certas.

E eu falei em ecologicamente sustentável porque a intenção não é criar ideias e crenças descartáveis. Elas são, muito pelo contrário, recicláveis. Elas não ignoram tudo o que veio antes e recomeçam do zero, toda vez. Elas não jogam fora o que já não parece mais tão interessante, deixando um rastro de poluição indissolúvel atrás de si. Elas aproveitam tudo que as antecedeu. Elas se transformam, se adaptam – se recombinam, firmam novos tratos entre si.

Assim, as ideias moribundas recusam o papel de lastro e se voluntariam como adubo, com a intenção de fertilizar o solo em que novas ideias poderão ser cultivadas. As nossas crenças-vovozinhas, em seus leitos de morte, ainda encontram tempo para nos encher de confiança e conselhos sobre como conquistar o coração daquela ideia-atraente, que outro dia andou piscando para nós (aliás, dizer que o apego por crenças antiquadas seria comparável a um namoro com as nossas próprias avós me parece uma metáfora bem elucidativa… mas eu nunca faria uma maldade dessas).

Nesse sistema ecológico e sustentável, o velho incentiva o novo porque sabe como é ser jovem. Porque já passou por isso, já viveu, já teve suas experiências. E, por mais medo que ele possa sentir, mostrando-se inseguro ao não saber o que está por vir quando seus olhos se fecharem pela última vez, seu corpo está cansado. Suas pernas já não se movem com a mesma agilidade de outrora. Já não respondem prontamente aos seus comandos. Elas já não sustentam, sozinhas, o peso daquele corpo desgastado. Um corpo que quer se libertar de tanta dor. Quer descansar. Quer deixar que a vida siga seu fluxo natural. Um corpo que, diante da crescente resistência que enfrenta dentro de si mesmo, sente-se improdutivo, falho, pequeno. Um corpo que, enfim, toma consciência de que tudo, um dia, tem mesmo que terminar.

… E assim ele se liberta, se desprende das amarra – apenas para descobrir que todo fim traz um novo recomeço.

Porque nem mesmo a morte é absoluta. Porque existe, sim, vida após a morte. Existe vida mesmo no corpo que se decompõe. As partículas podem se separar; podem deixar de existir como aquele conjunto específico, mas elas permanecem vivas, sempre vibrando. A matéria se transforma, mas não deixa de existir. Não deixa de ter a oportunidade de se reorganizar em um novo grupo, com uma combinação diferente.

Eis a sustentável leveza do nosso ser. Nossas certezas – todas elas – são ilusórias. Mas é de fantasia em fantasia que aprendemos a caminhar. É partindo de uma fantasia simplória, daquelas bem rústicas, que conseguimos chegar às fantasias mais redondinhas e complexas. É o nosso poder de acreditar no que, de fato, não temos como saber – porque não existe um “de fato” concreto –, que nos possibilita trabalhar a nossa mente; lapidar as nossas razões, emoções e sentidos. Se agíssemos o tempo todo como se nada conhecêssemos ou entendêssemos, talvez nos sentíssemos travados, perdidos naquele beco sem saída.

O que nos permite avançar são as ideias, opiniões, convicções e crenças que adotamos. São os sentimentos de certeza que vamos nutrindo, dentro de nós. E faz uma enorme diferença saber que nossas certezas são ilusórias… Pois é isso que nos permitirá transitar mais facilmente entre as várias oportunidades que se apresentarão. É isso que dará mais desprendimento, mais graciosidade para tudo. Que nos possibilitará mudar de lado, sem tanta culpa e sofrimento. Mudar de opinião, sempre que sentirmos necessidade. Porque são as ideias que obedecem ao nosso comando – e não o contrário.

Esse é o caminho da evolução; a trilha em que podemos abandonar as crendices que já estão caquéticas, obsoletas, para encontrar novos conhecimentos que nos permitirão transcender nosso estágio atual de consciência. Ao invés de morrermos abraçados com um repertório minúsculo, abarrotado com poucas certezas gigantescas, tomar consciência do processo ecologicamente sustentável de contínuo não saber nos permite seguir buscando sempre novas verdades. Verdades mais alinhadas com os nossos momentos de vida. Porque nós evoluímos, aprendemos, e, assim, nossas necessidades mudam. E, uma vez que nossas necessidades mudem, nós precisamos de novas certezas, novos sentidos.

… Podemos, portanto, pensar nisso, igualmente, como uma questão de apego – e desapego.

Saber que não sabemos nos permite adotar uma crença sabendo que ela é apenas isso: uma crença. Apenas uma interpretação passageira. E essas interpretações podem – e vão – progredir. Vão se desenvolver, conforme nós mesmos formos amadurecendo.

Sempre que nos apegarmos a velhas crenças, que já não cabem mais em nós, estamos nos apossando de cascas, de embalagens vazias – de cadáveres. Passamos, então, a vida carregando um peso desnecessário, originado naquilo que, um dia, já fez sentido para nós… Um dia construímos algo, lá atrás, e restaram alguns tijolos. E nós fazemos o quê? Botamos em um saco e os carregamos para cima e para baixo.

… Para quê?

É para evitar o desperdício? É para poupar para uma próxima obra hipotética? Não, minha gente, isso não é uma futura casa, não é um investimento: isso é um bando de entulho. Isso não é sustentabilidade. Isso é fardo, é prisão – uma prisão sem paredes. Porque um dia compramos esses tijolos, agora somos obrigados a acreditar que devemos carregá-los para sempre? Para onde quer que estejamos indo? Isso é ser coerente? É fidelidade? Fidelidade a quê, eu lhe pergunto?

… Fidelidade, no máximo, a uma ideia morta. Mortinha da Silva.

Defender crenças ultrapassadas até a minha morte é a minha morte. É a minha declaração de óbito ainda em vida. É o que tira a vivacidade de todos os meus passos. Porque é o que me faz ficar girando ao redor do mesmo ponto, sem nunca conseguir sair do lugar.

… Eu sou, então, o elefantinho que foi bem adestrado, na infância.

O elefantinho que, ainda pequeno, foi amarrado junto ao tronco de uma grande árvore. E lutou, tentou fugir, tentou se soltar. Mas seus esforços foram em vão. Nada mudou. Ele continuou preso. Só que ele não estava pronto para desistir. Não se conformava com aquela situação. E por isso insistiu, brigou mais um pouco, fez mais força. E nada. E tentou de novo. E de novo. Até que aprendeu. Aprendeu que não tinha jeito. Que não importava o quanto ele puxasse a corda, não conseguiria fugir. Não adiantava se esforçar, se desgastar – ele estava preso. Preso para sempre.

Por conta disso, hoje, por mais que tenha crescido – por mais imponente que seja seu tamanho –, ele é um elefante que pode ser amarrado a qualquer graveto. É um ser que pesa toneladas e nem ousa puxar aquela corda esfiapada. Nem se arrisca a tentar ultrapassar o círculo demarcado por suas próprias pegadas. É um mamífero gigantesco, que só caminha alguns passos, todos os dias – só até o ponto que ele imagina ser o seu limite.

Por que isso é lógico, não é? Se eu puxei trezentas vezes essa corda e nada aconteceu, quer dizer que não adianta continuar tentando, certo? Que não vale a pena continuar investindo energia nisso, sim? Que eu só estou me desgastando, só estou fazendo papel de bobo…

… Isso é ser coerente, né?

Pode ser. E pode não ser. Não precisa ser. Podemos continuar puxando a corda. Podemos não ter medo de fazer papel de bobo. Podemos nos arriscar de novo e de novo. Nos esforçando mais e mais. Porque, oras, o que está em jogo é a nossa liberdade. É o não sermos obrigados a nos contentar com um espaço reduzido, já tão conhecido e pisado.

Eu não sei o que existe além, mas eu sei que não quero continuar amarrado neste mesmo ponto para sempre. Não quero passar o resto dos meus dias com essa corda ao redor do meu pescoço. Isso seria uma bravata! Eu quero continuar caminhando. E, ok, isso pode fazer com que eu caia várias vezes. Quedas que eu poderia evitar se continuasse quietinho, aqui, no meu canto. Mas eu prefiro cair e me levantar mil vezes do que ficar deitado o dia inteiro. Do que ficar parado, esperando o espetáculo começar, a vida toda.

… E nada poderia ser mais natural do que isso.

Nada poderia ser mais lógico do que cair ao caminhar. Porque, ué, caminhar é encontrar o equilíbrio (dinâmico) entre movimentos de queda e paradas sob um novo eixo. Quando andamos, sem perceber, estamos sempre nos colocando em situação de risco. O ato de dar um passo é o movimento de sair de um eixo e se projetar para uma possível queda. Só não caímos porque surge um novo passo. E só damos esse novo passo porque acreditamos que daremos, antes mesmo de termos dado.

Ou seja: as minhas crenças me dão a confiança para dar o próximo passo. E o próximo passo, confirmando minha crença, alimenta minha confiança em continuar avançando. E, assim, se cria um círculo virtuoso, no qual minhas crenças alimentam a minha confiança e minha confiança alimenta as minhas crenças.

… Só que, veja bem: estamos falando de um processo dinâmico. Estamos falando de uma movimentação contínua. Porque é só enquanto nos movemos que conseguimos criar essa sensação de equilíbrio e evolução simultaneamente.

Ficar parado é uma tentativa de manter um equilíbrio já conquistado. Só que estamos parados. Não estamos evoluindo. E, a certa altura, ficar olhando sempre para as mesmas coisas enche o saco. Cansa a beleza. Só que, de tanto ficarmos parados, nos sentimos inseguros de recomeçar a caminhada. Sentimos mais medo de dar um novo passo – faz tempo que não damos um; estamos desacostumados; podemos cair!

E, da mesma forma que a confiança alimenta a caminhada, o medo trava. Quando escutamos aquela vozinha que diz que tudo dará errado; que eu não deveria estar aqui, escrevendo, me arriscando, eu paro. Em empaco. Eu me encolho. Eu deixo que as ideias limitantes ditem meus passos, criando um círculo vicioso. O medo alimenta a ideia de que é mais seguro ficar parado; que faz com que eu me sinta cada vez mais desacostumado com as caminhadas; que faz com que eu sinta cada vez mais medo de dar um novo passo; que faz com que a segurança daquele lugar onde estou pareça mais atraente do que a ideia de correr o risco de voltar a caminhar e cair…

Nós não caminhamos porque sabemos como funciona o processo da caminhada. Não andamos de bicicleta porque entendemos o mecanismo que nos permite encontrar o equilíbrio. A mamangava não voa porque disseram que ela poderia voar – ela voa porque nem mesmos as leis da física poderiam dizer que ela não pode voar.

Caminhamos porque acreditamos que podemos caminhar. Cremos que podemos dar uma função mais conveniente para as nossas (quase) quedas. Eis uma crença sustentável. Uma crença mobilizadora.

… Isso, sim, para mim, é coerência.

A coerência pela transitoriedade de tudo, não pela permanência. Porque, convenhamos: o tipo mais valorizado de coerência – aquela bem fixa e imutável – não deixa de ser uma crença. Contudo, nada me impede de ser uma pessoa coerente e que muda de opinião. Aliás, talvez eu seja mais coerente do que nunca ao agir desse jeito, não? Porque eu me enxerguei como alguém que está sempre se desafiando, sempre aprendendo, sempre melhorando. Porque eu me tornei comprometido com a mudança, e não mais com a falsa sensação de rigidez.

Eu não preciso me amarrar às minhas crenças para me sentir mais seguro. Eu posso me sentir mais seguro sabendo que vou mudar constantemente. Sabendo que a minha certeza de hoje não é a mesma de amanhã. E está tudo bem. Por que isso tudo, aqui, também é só um grande conjunto de crenças – e nada me impede de mudar, de novo, depois de amanhã. Nada exceto eu mesmo. Exceto o meu apego às minhas ideias; às minhas supostas verdades absolutas.

… Ah, as verdades absolutas.

Precisamos falar sobre as verdades absolutas. Precisamos aprender a nos comunicar de uma forma mais sadia com elas, antes que saiam por aí fazendo besteiras. E, eu sei: nós já falamos um monte sobre isso. Falamos em capítulos anteriores e estivemos falando até agora neste aqui. Sério, eu sei que alguns momentos as coisas podem ter soado até meio repetitivas. Sim, é provável que tenham, mas eu queria que você entendesse o porquê disso ter sido tão necessário… Queria que você se atentasse para o fato de que, ao olharmos para o que existe lá fora, somos repetidamente ensinados a tentar enxergar verdades absolutas.

Na escola, na faculdade, nos livros, na internet, nos comerciais de televisão; por todos os lados somos incentivados a aprender mais sobre o funcionamento do mundo que nos abriga. Somos estimulados a padronizar o que é belo e o que é feio. O que é atraente e o que é desagradável. Temos que obedecer o que é certo e evitar o que é errado. Somos ensinados sobre o bom comportamento. Sobre o que é aceitável e adequado. O que é bem-visto. O que é moralidade e ética. O que é direito e dever.

Somos atiçados, o tempo todo, a entender os mecanismos desse mundo exterior, que supostamente funciona de um determinado jeito. Pois é um “mundo sólido, concreto e que deve ser levado muito a sério”. É um mundo perante o qual nós devemos aprender a nos adaptar se quisermos supostamente evoluir.

Sim, desde pequenos nós aprendemos como tudo à nossa volta aparentemente funciona. Aprendemos, na escola, geografia, história, física, biologia, química, matemática, gramática… Aprendemos religiões, aprendemos fórmulas, aprendemos como dar as respostas certas. As respostas esperadas, desejadas, mais valorizadas. Aprendemos sobre como a sociedade funciona e como nós, supostamente, deveríamos funcionar para fazer parte dela. Para sermos produtivos. Para termos sucesso. Para nos encaixarmos e sermos bons cidadãos; bons no que fazemos; bons pelo que deixamos de fazer.

… Ok, mas e o que acontece aqui dentro? Quando é que eu olho para isso?

Olhar para dentro de você? Oras, não seja tão egoísta! Pense nos outros, criatura! Para de idiotice! Francamente, você… Ei, que cara é essa? Vai dar uma de criancinha e chorar, é? Pois pode parar! Engole o choro! Para! Chega! Sério, chega! Chega, chega, chega… Ah, chega, vai… Por favor? Olha, se você se comportar, a gente pode falar um pouco sobre isso… Se você realmente faz questão, podemos aprender, na aula de hoje, um pouco sobre o funcionamento do nosso corpo físico. Podemos aprender o que é bom comer, o que não é. O que é saudável, o que não. Podemos fazer exercícios. Podemos malhar, correr, caminhar – mas se agasalha bem e olha para os dois lados antes de atravessar a rua, sim?

… Tudo bem, eu faço tudo isso, prometo. E ainda levo o guarda-chuva, de quebra. Mas, e o que está realmente dentro? E as minhas emoções, a minha forma de pensar, por exemplo? Quando falamos sobre isso?

Ah, isso? Hm, isso a gente deixa para depois. Isso não importa tanto assim. Não é como esse bando de livros de autoajuda diz que é. O mais importante é aprender o que se deve aprender, o que todo mundo tem que saber. O importante é saber o que cai no vestibular. O que meu emprego exige. O que fará com que todos gostem de mim. O resto é resto. É só um detalhe.

… Mas não é só um detalhe.

Não é só um detalhe. Não é só um detalhe! Não é só um detalhe!!!

Pelo contrário: é a base de tudo. É a nossa sustentação para fazer todo o resto acontecer. É o nosso verdadeiro sustento.

… E é isso que estamos nos propondo a fazer aqui, neste livro: olhar para dentro.

Por mais que pudéssemos ter sido ensinados a olhar para o nosso interior desde sempre, nos sintamos privilegiados de poder fazê-lo agora. Muitos nunca chegarão neste ponto. Saibamos, portanto, o quão valioso é este nosso novo passo. Porque ele, infelizmente, ainda é uma exceção no mundo em que vivemos. Ainda é um privilégio; algo acessível, apenas, para uma minoria abastada. Abastada não (só) de dinheiro, mas de incômodos, de questões, de incertezas.

Enquanto falamos sobre tudo isso aqui, a maioria das pessoas continua buscando as respostas para suas perguntas no mundo que teima em existir lá fora. Na sociedade. No governo. No mercado financeiro. Na geografia ou em outro tipo de história. Existem, claro, muitas respostas disponíveis por lá. Só que elas só se tornarão úteis quando soubermos o que fazer com elas. Quando entendermos quais questões internas queremos solucionar com esses dados, externos e alheios a nós. Do contrário, voltamos às caixas vazias.

… Porque, de novo: o sentido para tudo está dentro de nós, não fora.

Se você leu a apresentação deste livro, conhece relativamente bem (uma parcela da) minha história de vida. E sabe que nunca fui muito de me encaixar. Porém, o que você talvez não tenha notado é que, mesmo tentando fazer diferente, eu vivia medindo meus feitos de acordo com o que o mundo lá fora me dizia que era sucesso. O como eu atuava e o quê eu fazia poderiam até parecer uma via alternativa, mas o porquê eu buscava tudo isso, de fato, continuava bem ordinário.

Assim, por mais que eu tentasse fugir do lugar-comum, por muito tempo eu continuei seguindo o trilho do trem. Por mais disfarçadas que minhas ações estivessem – vestindo fantasias empreendedoras –, eu continuei pegando o famigerado caminho das pedras.

Se a vida fosse um lamaçal, eu era aquele cara me equilibrando sobre algumas rochas achatadas, cheias de pegadas deixadas pelos que vieram antes de mim. Eu era aquele cara que se esforçava para não sair da linha, não pisar fora daqueles quadradinhos. E a vida parecia mais simples assim. Era cheia de certezas. Eu sabia o que eu tinha que fazer: bastava continuar andando sobre as pedras. Aquelas pedras, afinal, não estavam ali à toa; elas eram meu norte, meu guia mais do que confiável sobre o que eu deveria querer dessa vida. Sobre o que eu precisava fazer. Sobre quem eu tinha que ser.

Qualquer pé que escapasse para fora desses limites era um sinal de desequilíbrio. De que algo não estava dando certo. De que eu precisava me corrigir, me consertar, colocar as coisas de volta no eixo. Porque parecia muito mais fácil continuar pisando naquelas pedras, ao invés de correr o risco de me afastar e afundar na lama.

É verdade que a aspereza das pedras às vezes deixava meus pés doloridos, mas, né… faz parte, a vida é assim mesmo. Viver dói. E quem sou eu para reclamar? Poderia ser pior! Quem sabe o que o lamaçal poderia me reservar? Vai saber se não havia bichos estranhos, quiçá venenosos, à espreita… Por isso, a fórmula para o sucesso era simples e inevitável: manter os pés firmes nas pedras, custe o que custar.

As pedras eram meu único parâmetro de triunfo e felicidade. Eram minhas planilhas, meus gráficos, minha bolsa de valores. Eram a minha régua. De acordo com o tanto de pedras que conseguira alcançar, eu avaliava o quanto tinha avançado nessa vida. Aquelas pedras eram as respostas que eu precisava ter sempre à mão, para aquietar as questões que martelavam em minha mente. Eram as métricas que me informavam se o que eu fazia era certo ou não. Se eu tinha o bastante ou não. Se eu era alguém nessa vida ou não.

(Ou não: ainda hoje, ouço os ecos dos muitos ou não que me faziam companhia nessa vida. Ou não que pareciam ser proferidos por um corvo agourento, que uma noite invadira minha morada, meus versos – e dava um tom soturno, fúnebre para tudo).

O caminho das pedras é o caminho que se inicia no primeiro dia de escola. O dia em que a maioria de nós abre o berreiro e não quer largar as pernas da mãe. É o caminho que nos leva dali direto para a faculdade, com apenas algumas férias para recuperar o fôlego no meio de tão árdua e extenuante viagem. E depois vem o trabalho, o carro, o noivado, a casa própria, o casamento, os filhos, as promoções, a aposentadoria. Começamos aos quatro ou cinco anos, e continuamos firmes nessa passada enquanto fazemos vinte, trinta, quarenta, cinquenta, sessenta, talvez setenta…

Você conhece muito bem esse caminho. Todos nós conhecemos. Não precisamos que ninguém nos apresente a ele. Que o explique. Ele está aí. Ele é o modo padrão, tradicional, consagrado. O default da nossa configuração social. É um caminho cheio de marcos. De provas. De promessas. De conquistas. De querer sempre mais isso, mais aquilo. De saltar de um patamar para outro. De nunca estar contente com o que se tem – porque as nossas motivações estão sempre lá fora, nunca aqui dentro. Estão sempre projetadas em algo ou em alguém. Em expectativas de um futuro melhor. Porque sempre o que virá pela frente é o que dá sentido para a minha caminhada. Sempre o que o futuro me reserva é melhor; é a cenoura na ponta da vara que me permite continuar caminhando.

… Caminhando para não ter de encarar aquele vazio que eu sinto, sempre que fico em silêncio.

Opa, quer dizer então que a escola é uma instituição dispensável? Quer dizer que fazer uma faculdade, casar, ter filhos ou ganhar dinheiro são conquistas tinhosas? São objetivos maléficos? Bens supérfluos? Luxos desnecessários?

Não. Não é isso que estou querendo dizer. Eu não estou, aqui, tentando demonizar esse caminho mais conservador, mais comum. Ele é o padrão de fábrica por alguma razão. Possivelmente, porque ele funciona para a maioria das pessoas – ou, no mínimo, já funcionou. E, por isso, a gente se acostumou a ele. Se condicionou a aceitar que ele é o normal, o mais lógico, o mais garantido.

… Ele não é ruim, pior ou melhor. Ele, apenas, não é o único.

É só um tipo de caminho. O caminho que, hoje, eu comparo aos arcos narrativos das nossas histórias de vida. Os arcos que nada mais são do que uma estrutura sobre a qual podemos construir uma trama. Um enredo capaz de fisgar a atenção de quem quer que se aproxime das nossas páginas.

Os arcos narrativos são pensados, justamente, para que consigamos colar os olhos dos leitores no que estamos escrevendo. São eles que fazem com que as pessoas queiram saber sempre mais. São eles que servem como pontes facilitadoras para a transmissão de uma mensagem; para que o público-alvo sinta mais prontamente as emoções que queremos provocar; para que as grandes plateias vibrem junto com o nosso protagonista, sentindo-se partes do mundo imaginário que criamos.

Arcos narrativos são ferramentas poderosas. Eles, invariavelmente, funcionam. Eles nos levam ao cinema, às livrarias, ao Netflix. Seria tolice negar isso, dizer que eles são monstros, que devemos torcer o nariz, que precisamos combatê-los…

… Não é disso que estamos falando.

Não existe mal algum em frequentar a escola. Em ir para uma faculdade. Em arranjar um trabalho, em ganhar dinheiro, em comprar um carro para se locomover com mais conforto. Não é errado querer um relacionamento estável, com filhos, sob um teto seguro. Nada disso é um problema. Essa não é a questão. Para mim, essa nunca foi a questão.

… A questão é, simplesmente, que não existe esse caminho.

Quando eu me sento para escrever, não existe uma única trajetória possível. Eu não sou obrigado a utilizar os arcos narrativos. Eles não são errados, mas tampouco são a resposta certa. Eles não são, nem mesmo, a resposta mais coerente, mais viável, mais crível. Eles são, apenas, um tipo de resposta. Uma resposta que já foi muito utilizada, muito testada e reforçada. Uma resposta que já está aí, disponível para quem quiser adotar como sua. E eu posso fazê-lo ou não. Posso querer usufruir de suas prometidas benesses ou não. É uma escolha.

… É tudo uma questão de escolha.

Se optar pelo sim; por empregar os arcos narrativos, é provável que minha história se mostre mais palatável para uma quantidade maior de pessoas. Porque será uma história mais conhecida e reconhecível. A questão é que esse fato – essa popularidade e aceitação imediata – não invalida as demais escolhas. Não invalida a história que se aventura por outros rumos.

O fato de existirem trocentas evidências de que as histórias com arcos narrativos funcionam não serve como prova de que as histórias que não fazem uso deles não funcionam. Porque, talvez, essas histórias diferentes não possam ser medidas seguindo as mesmas métricas. Talvez, elas sequer se preocupem em levantar quaisquer comprovações de sua viabilidade. Talvez, elas só existam. Só estejam por aí.

E, talvez, por serem tão diferentonas, esquisitas – exóticas! –, essas histórias permaneçam ocultas. Talvez prefiram tomar para si alguns cantos mais inusitados, mais ermos, acabando por passar despercebidas. Talvez, por serem uma flagrante minoria, seja raro conseguirmos nos deparar com uma delas. Talvez, quando alguém o faz, quase sem querer, acabe por não levá-las a sério, tratando-as como coincidências, como golpes de sorte. Como exceções. Como um ou outro ponto fora da curva.

E, assim, essas trajetórias peculiares são rapidamente soterradas. Soterradas e esquecidas por um processo natural. Porque o que predomina tende a querer ocupar todos os espaços. O costume tende a assimilar o que há de útil e atraente na novidade. A massa tende a ofuscar as singularidades.

… E as histórias mais esquisitas tendem a ser soterradas pela avalanche de enredos que se enquadram nos arcos narrativos.

Os tais arcos dourados, afinal, são produzidos em escala industrial, enquanto as diferentonas dependem de um esforço artesanal. Ou seja: uma história exótica é comparável a uma agulha que se esconde no palheiro. Ela existe – porém, está soterrada; está camuflada entre milhares de fios de palha.

… E a questão, aqui, tampouco envolve um protesto em relação a essa desigualdade.

Porque, talvez, o intuito da exceção não seja contrariar a regra. Nem tudo precisa querer instaurar uma revolução. Nem tudo ambiciona a opulência, a grandeza. Porque, isso não seria, de novo, querer se medir pela régua dos outros? Pelas métricas estabelecidas por convenções? Não seria querer falar em nome de muitos, não mais só de si mesma?

Talvez, a exceção só não queira a regra para si. Talvez, ela só não queira a igualdade que é sinônimo de conformismo. O igual que se perde no idêntico. Talvez, ela só queira o seu espaço. Um espaço onde é permitido manter o silêncio. Um espaço privado, sem tantas privações. Um espaço em que se pode, simplesmente, não saber. Onde bandeiras não precisam ser levantadas. Porque, mais do que uma bandeira para guiar multidões, existe ali o sigilo irreproduzível de um único ser.

… Porque, às vezes, o ato de se calar talvez fale mais alto do que todo o barulho do mundo.

Em um mundo pautado por redes sociais, talvez seja difícil acreditar que esse tipo de história ainda existe. Mas existe. Vez ou outra os próprios mecanismos de curtidas e seguidores tratam de levar um desses seres extraordinários para os holofotes. Eles, afinal, nos inspiram. Por razões que nos fogem à razão, suas histórias nos tocam em lugares diferentes. Em pontos mais sensíveis. Em áreas ainda inexploradas.

Só que nós queremos compreender esse fenômeno – precisamos entender! Precisamos sugar tudo o que pudermos dele! E, automaticamente, começamos a criar versões romanceadas de suas histórias. Inventamos filmes mentais ou reais, com roteiros bem estruturadinhos, cheios de ação, drama, turning points, plot twists e climaxes arrebatadores. Nos esforçamos ao máximo para florear caminhos que, por si só, desconhecem essas flores tão plásticas e perfumadas que colocamos ali.

Porque aquelas histórias são tão estranhas, mas tão estranhas, que precisamos impor a nossa estrutura, já consagrada, para que pareçam fazer mais sentido. Para que pareçam, de fato, uma história. Precisamos conseguir enxergar um começo, um meio e um fim. Precisamos vislumbrar o protagonista que vivia em um mundo chato, e que daí recebeu um chamado, encontrou um mestre, enfrentou desafios, venceu seu pior inimigo e voltou para nos apresentar as maravilhas desse admirável mundo novo.

… Ou seja: nós, muitas vezes, colocamos arcos até onde eles nem caberiam.

Não são os arcos que estão sempre presentes – que são obrigatórios –; somos nós que os empregamos, de novo e de novo. Somos nós que os procuramos – e encontramos – em tudo e todos.

Porque essa é uma forma de pensar tão martelada em nossas mentes que se tornou automática. De tanto a escutarmos; de tantas vezes que foi repetida, ela se entranhou fundo. Agora, soa como uma verdade absoluta.

Por isso, muitas vezes, ficamos esperando que a vida pareça com um conto de fadas. Esperamos que as coisas, por si só, façam sentido. Esperamos que o sol brilhe quando estamos felizes, e as tempestades despenquem quando choramos. Esperamos viver em uma história da Disney. Uma história recheada de finais felizes. Uma história que nos deixa esperançosos pelas recompensas externas que têm de chegar, porque nós fizemos tudo certinho, tudo conforme o script; tudo como manda o figurino.

Temos uma estrutura pronta em nossas mentes. Uma estrutura rígida, que nós dita o que virá a seguir – ou o que deveria vir. Assim, estamos sempre de olho na pedra seguinte. Mal experimentamos o que temos e já ansiamos pelo que está por vir. Entramos em nossos muquifos já mirando nossos merecidos castelos. Comemos o jantar desejosos pela sobremesa. Observamos nossos crushes e checamos nossas listas mentais sobre as qualidades que a Família Real tem que ter. Decidimos ter filhos (ou não!) enquanto projetamos os custos do colégio e da faculdade. Nos perguntamos: qual é o próximo passo? Quando é que eu vou chegar lá? Quanto tempo eu tenho para conseguir, sem quebrar a coerência dos arcos narrativos?

Somos trem bala, parceiro, prestes a partir. Próxima estação: Paraíso, acesso à linha verde. Queremos que tudo – absolutamente tudo – mude, para que se enquadre nos nossos moldes de uma vida perfeita.

… Tudo, menos nós mesmos. Menos os nossos planos.

Vivemos em um mundo de expectativas. De paraísos prometidos. De esperanças. E fica nisso. Para aí. Continuamos esperando que algo aconteça. Esperamos que a vida siga o “curso natural” dos acontecimentos que nós impusemos a ela, com as pedras e barricadas que encontramos largadas por aí. E nada acontece. Continuamos sendo o elefante injustiçado, com a corda no pescoço. O mamífero gigantesco que lamenta sua sorte, enquanto espera dar a hora do próximo espetáculo. A hora de repetir sempre os mesmos truques.

Queremos uma história digna de Cinderella – mas não queremos passar pela fase da gata borralheira. Queremos ir direto para a fada madrinha, para o príncipe, para o sapatinho de cristal. Queremos que as bênçãos venham até nós. Queremos que a mágica aconteça. Queremos o sucesso imediato que os reis tiveram, sem passar pelos dez anos de batalhas e sacrifícios que eles passaram. Queremos a família do comercial de margarina, porque a nossa família nunca foi tão fotogênica (e plástica) quanto a daqueles bons atores. Queremos mais ouro e menos penúria. Queremos a pedra filosofal, sem darmos bola para a filosofia.

Vivemos reclamando. Vivemos descontentes. Vivemos amaldiçoados pelo que poderia ser e não é. Vivemos condicionados pela busca do que ainda queremos ser, sem espaço para sermos quem já somos. Sempre podemos mais, queremos mais.

Continuamos nos preocupando tanto com o que ainda está por vir, que não aproveitamos o que está aqui. Ficamos tão ansiosos pelos próximos passos, que nos esquecemos da paisagem que já está visível. Nos esquecemos de usufruir do que já temos. De desfrutar da companhia das pessoas que já cativamos. De nos relacionar com elas. De amá-las. Amá-las pelo que são, não pelo que poderiam ser. Não pelo que serão. Não pelo que acreditamos que sempre foram. Nos esquecemos de amar – amar o que vive, agora.

… Somos o protagonista que quer virar herói — por não perceber que o herói já está aqui. Ele já vive em tudo e todos.

O tempo todo nós já somos as estrelas que miramos lá no céu – desde que nos permitamos ser. Desde que não nos reduzamos. Nós somos poeira, sim, mas as estrelas também são. Todos somos. Somos deuses. Somos nossa própria mitologia e religião.

Mas não… Isso entra por um ouvido e sai pelo outro. Porque não podemos relaxar, temos que nos ocupar. Temos que ser produtivos. Não há tempo a perder. Nunca dá tempo de descansar, de olhar para nós mesmos – exceto em um espelho. Nunca temos tempo de enxergar que o belo e o feio não estão lá fora, mas aqui dentro. Estão nos meus julgamentos. Estão na minha forma de pensar. Na forma que eu escolho estruturar minha vida.

Vivemos aficionados por possíveis melhorias, por futuras vitórias. Vivemos pelas conquistas que virão. Conquistas cujo sabor há de durar frações de segundos, antes de nos prepararmos para o próximo jogo. Antes de rearranjarmos o tabuleiro, prontos para uma nova partida.

No afã de estarmos prontos, para tudo o que der e vier, estamos sempre nos preparando, nos aprontando, mas nunca presentes. Nunca conscientes. Somos sempre uma placa de obra na via; um aviso de programado incremento. Somos tudo o que em teoria podemos ser; somos nossos mais grandiosos sonhos – nunca nossa realidade. Somos sempre o próximo passo, nunca o atual.

… O que tem para hoje nunca é o suficiente.

Sempre falta. Sempre faz falta. O que é valioso é o que é mais escasso. É o que é mais difícil de conseguir. E queremos encontrar o pote de ouro no final do arco-íris tomando o mesmo caminho que todo mundo está tomando. Queremos competir pelo troféu que todo mundo está desejando. Porque, se não for assim, não vale. Não está de acordo com as regras do jogo.

… Que jogo? Que jogo é esse que nós estamos jogando?

É um jogo que nós mesmos criamos. O jogo que nós aceitamos jogar. Um jogo no qual eu me identifico com o peão que a minha própria mão move. O jogo que se joga com a nossa própria vida.

O jogo da (nossa) vida…

Trilhe o seu caminho em busca do sucesso! Desenvolva a sua carreira, ganhe dinheiro, case e tenha filhos. O Jogo da Vida é a simulação da vida real com muita diversão. Contém: 01 Tabuleiro, roleta, faixa numerada, 8 carros, 32 pinos azuis, 32 pinos rosas, 24 cartões de riqueza, 8 certificados de ações, 24 apólices de seguro (8 de vida, 8 de casa e 8 de carro), 21 notas promissórias e 360 notas de dinheiro (50 de um mil, 50 de cinco mil, 50 de dez mil, 70 de vinte mil, 70 de cinquenta mil, 70 de cem mil).

… Pode isso, Arnaldo?

Pode, ué.

… A questão é: você quer mesmo jogar esse jogo? Esse mesmo jogo, por toda a eternidade?

Se sim, então, quem sou eu para recriminar?

Não, longe de mim; joga aí.

A escolha é sua. Sempre sua.

A minha vida, no entanto, já não cabe mais em um tabuleiro. Eu já não aposto qualquer ficha na sorte, confiando nos desígnios de uma roleta (russa?). Já não existem cartas marcadas, casas em faixas numeradas, pinos azuis e rosas em tudo o que eu vejo. Não existem pedras obrigatórias, verdades absolutas.

Que os arcos narrativos funcionam é inegável, insisto. Só que, mesmo quando optamos por utilizá-los, existe uma grande diferença entre saber aproveitá-los a favor da nossa história e deixar que eles ditem os rumos. É muito diferente tê-los em nossa mochila de caminhada – como uma ferramenta útil e que pode ser sacada sempre que quisermos – de encará-los como pontos inegociáveis. Como regras insubstituíveis.

(… Regras: um outro nome para opiniões, convicções e crenças).

Você já teve a experiência de assistir a um filme em que tudo estava marcado demais? Em que tudo estava, sim, no lugar certo, na hora certa, mas não rolou? Não trouxe nenhuma vibração mais caliente para o seu corpo? Não teve nada de mais significativo? Não despertou nenhuma emoção duradoura? Foi só mais do mesmo? Só mais um filme? Um amontoado de clichês? Algo digno de ser esquecido depois de algumas horas?

Existem milhares de filmes assim (e eu não sou louco o bastante para me arriscar a dar exemplos). São filmes que cumpriram bonitinho o que estava no roteiro e ok. Isso é tudo. Fez o que tinha para fazer e todos foram embora para casa, com mais – ou menos – dinheiro no bolso, a barriga cheia de pipoca e vida que segue.

Por outro lado, existem incontáveis filmes que também utilizaram a estrutura dos arcos narrativos e conseguiram criar histórias memoráveis. São histórias que nos levam para dentro das telas, que nos absorvem, nos impactam, nos apresentam outros mundos, antes inimagináveis.

… Essa, para mim, é a principal diferença entre saber ou não utilizar a ferramenta dos arcos narrativos.

No primeiro caso (o dos filmes de recepção blasé) a estrutura foi seguida de uma forma meio mecânica. Mais engessada. Provavelmente mais insegura, com medo de pisar um centímetro, que fosse, fora das pedras. A preocupação em seguir a fórmula do sucesso era tanta, que ninguém desfrutou dessa rodada do jogo da vida. Não houve espaço para algumas escapadelas mais criativas, mais autorais.

O segundo caso é o de um contador de histórias que domina a ferramenta que escolheu adotar. Ele sabe como aproveitar o que ela tem de melhor e extrair o máximo de sentido daí. Um sentido que transborda para o público-espectador. O diretor não se limitou pela estrutura dos arcos: ele os manejou como catapultas. Ele expressou sua originalidade por meio dessas formas mais palatáveis. Talvez não tenha conseguido agradar gregos e troianos, mas conseguiu deixar uma marca – bem singular – no mundo.

Ou seja: os arcos narrativos são, igualmente, caixas vazias. Se bem utilizados, eles podem realizar maravilhas. Quando, no entanto, deixamos que eles nos enquadrem, a história é bem outra. Aí nos tornamos vítimas. Aí caímos no conto do vigário. Passamos a nos iludir com os truques de mágica, ao invés de assumir o papel de Mister M.

Tudo o que eu defendo é que não nos contentemos em comprar listas prontas ou objetivos enlatados. Não aceitemos os gabaritos que os outros vendem por aí, com as (supostas) respostas certas para todas as angústias. Não nos tornemos os ticadores de missões cumpridas. Não deixemos que qualquer processo de contação de histórias vire algo enfadonho, estéril, mecânico.

… Não acreditemos, tampouco, nos prazos de validade que nós mesmos deixamos estampar nos rótulos que decidimos aceitar.

Porque não existe tempo certo. Não existe hora errada. Existe você. Existe a sua trajetória, o seu caminho, a sua andança. Existe o seu tempo, a sua hora. O seu ritmo, a sua passada. E o seu presente. Só o seu presente. Porque o seu passado e o seu futuro não existem por si só. Eles só existem em relação ao seu momento atual.

… Você só existe aqui e agora. Nunca antes nem depois.

Se você vive sempre ansiando pelo próximo passo – ou se vive em função dos seus passos anteriores –, você se contenta em sobreviver no interior de uma prisão ilusória. Em algo que não é. Em algo que já não existe. Ou em algo que nunca existirá – porque o seu presente é uma eterna espera, nunca um plantio. Você se enfurna em uma casa mal-assombrada, cheia de fantasmas arrastando correntes que rangem. Cheia de ideias que te enchem de cobranças, de críticas, de ordens, de raivas, de medos.

Mas você tem as chaves dessa casa. Você sempre pode levantar do sofá, abrir a porta e sair. Pode pegar o próximo trem ou pode escolher caminhar por aí. Basta, para tanto, acreditar e seguir em frente. Confiar e agir, sem temer as possíveis quedas. Ou as futuras incertezas. Ou qualquer sentimento de incoerência. De ter ficado para trás. De ter que correr em busca do tempo perdido. Porque nada disso existe. Tudo pode ser aproveitado. Nada é absoluto. Nada pode ser imposto sem o seu consentimento. Porque, se existisse um manual de normas de conduta para os criadores, a primeira e única regra seria: não existem regras absolutas.

Faz o que teu herói quer, há de ser o todo da lei.

Tudo que é seguido cegamente é um convite para alcançarmos a angústia, o estresse, a insegurança, a sensação de vazio, de falta de propósito – vulgo o nosso velho conhecido: o beco sem saída.

Claro que, se os arcos narrativos funcionam, eles podem ser utilizados. Eles podem nos ajudar a iniciar nossas caminhadas. Podemos acreditar neles para não cairmos nesses becos chatos e estagnadores. Nos momentos em que nos sentimos mais inseguros, podemos recorrer a essas falsas noções de certeza para nos apoiarmos. Para encontrarmos uma base, um sustento.

Não existe problema algum em começarmos tomando o caminho mais tradicional. É difícil que não o façamos, aliás. Vamos à escola. Façamos faculdade. Namoremos. Arranjemos um estágio. Recebamos nosso primeiro pagamento. Vistamos nossas gravatas e retoquemos a maquiagem. Faz parte. Tudo isso pode fazer parte. Porque, em diversos momentos, nós só conseguimos relaxar e nos desprender dos arcos padronizados depois de termos estudado suas estruturas a fundo. Depois de termos jogado muitas rodadas desse jogo, até torná-lo algo óbvio, repetitivo, dispensável.

… Afinal, nós só conseguimos vislumbrar a existência desses arcos, tão entranhados na nossa cultura, quando os conhecemos bem. Quando os encaramos sob as mais diversas perspectivas – porque o que desconhecemos, de certo modo, não existe, lembra?

Como sempre, o ponto fundamental é termos consciência. Consciência do que estamos fazendo. Do caminho que estamos trilhando. Podemos começar por esse caminho das pedras, sem problemas, desde que tomemos consciência dele em algum ponto. E essa conscientização pode vir na faculdade, no primeiro emprego ou depois de dez anos atuando em uma área que já não faz mais muito sentido. Isso pouco importa: importa que tomemos as rédeas de nossas vidas!

E, como em tudo na vida, para conseguirmos dominar uma ferramenta, precisamos de prática. Precisamos de experiência. Precisamos de disciplina e dedicação. Precisamos fazer várias e várias vezes. De novo e de novo.

Porque é natural que nas primeiras tentativas – de enfrentar esse mundão que existe lá fora – nos sintamos desajeitados. Pisamos em falso, perdemos o equilíbrio com frequência. Enfrentamos um nervosismo desesperador; um frio na barriga terrível, que parece que nunca terá fim (lembra de quando aprendeu a dirigir?). E, atabalhoados, nos atemos a seguir qualquer pegada que encontramos pela frente. Qualquer instrução que nos dê o mínimo de segurança para conseguirmos realizar determinada tarefa.

… Usamos, então, os arcos sem desviar o olhar para nada além.

Tentar caminhar sobre as pedras, nessas horas, já é desafiador o bastante. Ainda somos estagiários; ainda estamos aprendendo como passar um cafézinho. Nos contentamos, portanto, em repetir o processo padrão de forma mecânica, enrijecida, porque é o que damos conta de fazer, agora. Tudo é alarmantemente novo, o tempo todo! É tenso! É complicado, cheio de detalhes! Por isso, quando aparece uma brecha, eu desligo mesmo! Eu entro no piloto automático e relaxo!

Depois, com o tempo – o nosso tempo –, aprendemos a manejar com mais destreza nossas ferramentas. Aprendemos a caminhar com mais confiança. Sentimos que já sabemos as regras desse jogo de cor e salteado. Já vislumbramos com mais clareza todos os limites desse tabuleiro. Já conseguimos caminhar e nos equilibrar sem precisar parar para pensar muito nisso.

… E é nesse ponto que a criatividade pode fazer a diferença.

É nessa hora que alimentarmos uma vida mais artística pode nos levar além. Porque, quando tudo lá fora parece cair na mesmice, eis a hora em que precisamos (mais do que nunca) dar voz para a singularidade que existe dentro de cada um de nós.

É hora de aproveitarmos os impulsos que nos imploram por mudanças. Podemos, claro, escolher ignorá-los, mas isso também terá um custo. Talvez não seja um custo financeiro, mas será um custo energético – porque tudo é energia. Será um custo de sentido, talvez. Ou um custo de tempo, de motivação psicofísica… Para mim, seja qual for a forma de energia que sirva de fiador nessa transação, é um custo muito alto para se pagar – os juros são exorbitantes!

Por isso prefiro não deixar que o óbvio se perpetue. Me esforço para alimentar minha curiosidade. Para ousar. Para tentar mudar algumas regras – aos poucos, sem pressa. Uma rodada por vez.

… Até que já não exista qualquer sinal daquele jogo que existia lá no começo.

Eu deixo minha criatividade tomar a dianteira. Sigo minha intuição (alguém aí tem medo dessa palavrinha mágica?). Agora, reforçando: por mais experiência que tenhamos adquirido; por mais milhas que já tenhamos caminhado, tomar esse caminho será sempre um novo começo. E será difícil. Será incômodo. De novo e de novo. Será desafiador escutar aquela voz que cantarola coisas tão diferentes aí dentro de você. E, mesmo quando você conseguir escutá-la, será difícil colocá-la no mundo. Será difícil concordar com ela – pelo menos em um primeiro momento. Porque ela vai soar estranha, esquisita – exótica demais!

Você terá medo de ousar ser diferente. De desafiar os padrões. De abandonar o modo default. De se arriscar. De passar vergonha se for uma pessoa louca o suficiente para querer se reinventar. Você vai se frustrar – vai se frustrar um bocado.

… E isso é ótimo.

Frustração faz parte. É um sinal de que estamos nos desafiando. De que não estamos nos acomodando. Se acharmos que erramos é porque tentamos fazer alguma coisa diferente do usual. Porque estamos aprendendo algo. É um sinal de que não estamos aceitando as respostas que o mundo está nos dando. E, com isso, estamos nos abrindo, nos transformando. Estamos nos lapidando. Estamos nos tornando mais e mais conscientes das regras, dos limites autoimpostos e do que há além. Estamos caminhando e fortalecendo nossa autoestima. Porque aguentamos o tranco proporcionado por essa frustração. E nos levantamos. E lá vem mais um tranco. E outro. E continuamos a nos levantar. E continuamos a caminhar. E, se aguentamos esses chacoalhões, é porque somos mais fortes do que imaginávamos a princípio. Podemos dar um mais um passo. E outro. E, assim, ganhamos confiança.

… E confiança é tudo nessa vida.

A vida artística depende da nossa confiança. Precisamos aprender a confiar nessa voz que cantarola tão belamente dentro de cada um de nós. Precisamos de confiança para escutá-la e para deixar que fale através de nós. Precisamos confiar que ela fala com conhecimento de causa. Porque ela é a voz que traz o que antes era inconsciente para a consciência. Ela enxerga, de antemão, o que nosso intelecto não é capaz de ver. Ela enxerga de forma mais ampla. Mais clara. Com um repertório mais rico, mais vívido.

… E, por isso, eu acredito que essa voz nunca erra.

Muitas vezes a transmissão da mensagem pode até falhar. Mas a ideia original não estava errada – ela só foi distorcida. Distorcida por algum chiado na linha, que nos impediu de entender a real essência do que a voz interior queria nos dizer. Podemos desejar tanto alguma coisa, que tentamos manipular a mensagem para que pareça dizer o que queremos escutar – ao invés de nos abrirmos para o que está realmente sendo comunicado. Nossas expectativas, portanto, podem se tornar grandes ruídos. Assim como nossas opiniões, convicções e crenças.

Exemplo: podemos, certo dia, durante um passeio, sentir uma vontade imensa de falar com determinada pessoa. Nunca a vimos antes, mas, quando nossos olhos se cruzaram… sentimos algo diferente, como nunca tínhamos sentido. O que foi isso?, nos perguntamos. Mas nós não sabemos. Não encontramos palavras para explicar. No máximo, sabemos que não foi mera atração física. Sabemos que não foi por causa de um perfume, de um simples sorriso. Sabemos dizer tudo o que não foi – mas não o que é; não o que aconteceu. Porque o que está acontecendo extrapola nossa compreensão intelectual. É algo maior. Algo estranho. Algo que, simplesmente, não entendemos – ainda…

Claro que não! Porque esse é um sinal de que a nossa voz interior entrou em ação. E a forma como ela se comunica transcende a compreensão comum, ordinária. Essa voz não fala, na maioria dos casos, por meio de palavras. Ela fala através de sensações, de símbolos, de coincidências, de fatos inusitados. Ela é diferente, oras! E tentar intelectualizar essa mensagem é colaborar para que a voz se cale. Para que a sensação se dissolva.

… Porque a nossa voz interior é algo que traz à tona estados mentais supraconscientes – ela acessa esferas que a nossa razão não consegue.

Só que nós fomos ensinados que somos seres racionais. Que a razão é nosso principal diferencial. Nossa principal arma. E, em muitos casos, é mesmo. Mas não nesse. Não quando estamos lidando com a nossa voz interior. Por isso, o que a maioria de nós costuma fazer nesse tipo de situação? Vai lá conversar com aquela pessoa ou desdenha da estranha sensação? Confia na voz interior ou tenta se convencer de que foi um engano; uma besteira que passou pela cabeça? Acreditamos ou nos retiramos, praguejando contra nós mesmos?

A razão é uma ferramenta maravilhosa, quando bem usada. Quando abusamos dela, no entanto, torna-se igualmente um peso morto. Pensar demais em tudo é um convite para que nossa cabeça viva cheia de barulho. De chiados. De bois na linha. É uma ilusão, afinal, acreditar que nossa razão está no controle de tudo. Ela não está – nem nunca esteve. É uma farsa pensarmos que nosso intelecto é um manda-chuva confiável.

… Não passa de uma crença.

A razão não está no comando. Ela é, no máximo, um mensageiro esforçado – que nos ajuda a interpretar a realidade. Ela é o Hermes do nosso Monte Olimpo. Um deus capaz de carregar as mensagens de uma divindade para outra. Do paraíso para o inferno. É o deus dos viajantes, tanto quanto dos ladrões. Dos que caminham, assim como daqueles que escolhem distorcer tudo.

Ainda assim, confiamos absolutamente na nossa razão. Ela costuma funcionar de forma tão coerente, não é mesmo? Isso quer dizer que ela nunca falha, certo?… E, desta maneira, porque aprendemos a confiar única e exclusivamente em nosso lado racional, achamos que não adianta falar com aquela pessoa. Temos certeza de que ela não nos dará bola. Ela nos achará bobos, perdidos, ridículos. Não saberemos o que fazer. Porque não sabemos se ela também se sentiu como nós nos sentimos. Não sabemos – e não temos como saber! Não sabemos de nada! E, por isso, preferimos não nos arriscar. Ouvimos a nossa “infalível” razão, e nos recusamos a dar trela para essa louca da voz interior.

Porque, quem é essa desvairada, afinal? Quem é essa voz que fica cantarolando coisas tão estranhas aqui dentro? O que poderia estar além da nossa razão? Que processo decisório inusitado é esse, que pode ser tão ou mais eficaz do que a nossa própria lógica?

… Para mim, essa é a voz do nosso eu artístico; nosso eu criativo. Da nossa essência. Da nossa criança interior. É a danada da intuição. É a voz do coração. Do nosso herói. Do nosso eu superior; nosso eu maior; nosso sagrado anjo guardião – chame como quiser.

Ela aceita muitos nomes. Porque, justamente, está além deles. Ela extrapola qualquer palavra, qualquer rótulo imposto pela nossa mente racional. E, talvez por isso; dadas todas essas peculiaridades, você encontre mil e um motivos para não acreditar nela. Para desdenhar das minhas palavras – porque, no final das contas, são só palavras. Palavras que não provam nada – e nem querem. Sendo assim, se quiser entender um pouco mais sobre essa voz interior, você precisa escutá-la. Não tem outro jeito. Não existem atalhos. Você precisa experimentar – testar por sua própria conta e risco.

… Se quiser saber do que estou falando, você precisa vivenciar com suas próprias pernas.

E eu, claro, acredito que vale a pena fazê-lo. Vale a pena confiar nela, mesmo quando o barulho dentro da nossa cabeça acaba por soterrá-la. Porque, independente de qualquer coisa, ela continua aqui, firme e forte. Você pode ou não escutá-la, mas ela está aí. Cabe a você persistir. Cabe a você confiar. Não é possível ver para crer. Porque nós não funcionamos assim. Nós cremos para vermos. Precisamos acreditar nela para que se torne mais clara. Cada vez mais nítida. E menos sujeita a distorções.

Seja como for – acredite você ou não –, eu acredito que ela está aí. Acredito porque eu sinto ela aqui. Por mais que eu não consiga explicar, eu sinto ela aqui. E, ao sentir ela aqui, de certa forma, acabo sentindo ela em toda parte. Por todos os lados. Em tudo. Em todos. Porque tudo está conectado.

… É nisso que eu acredito.

Eu acredito que todos temos arte dentro de nós. Todos somos criativos. Nós só precisamos enxergar isso. Precisamos aprender a confiar nas nossas vozes mais autênticas. Precisamos nos lembrar – nos lembrar da criança que ainda vive dentro de nós e que quer sair para brincar.

Porque, no mínimo, em algum momento da sua infância, eu imagino que você se divertia um bocado inventando histórias, criando mundos e fundos com suas bonecas, seus carrinhos ou com qualquer outro brinquedo que fosse o seu preferido. Lembra disso? Lembra de quando você cantava pela casa? Quando você dançava sem motivo? Quando pintava, desenhava, reinventava a utilidade de tudo? Para mim, aí estão as provas – se é que elas são necessárias – das mais diversas facetas desse seu lado artístico e criativo.

Toda criança é criativa. Todos somos artistas em potencial. Nós só nos esquecemos disso, às vezes. Só deixamos que a vida nos leve por outros caminhos. Deixamos que os passos vacilantes nos afastem dos nossos sonhos, dos nossos mundos mais fantásticos – em nome da busca por uma suposta racionalidade. Nos tornamos pessoas com sólidas certezas. Pessoas cientificamente ponderadas. Pessoas sérias.

Porque nós aprendemos que temos de crescer. Não podemos ser para sempre os mesmos meninos perdidos. Não podemos viver voando por aí, navegando atrás de fadas. Existem, afinal, perigos mais reais do que um navio pirata comandado por uma mão de ferro (vulgo um gancho). Temos que aprender a ser mais responsáveis. Porque a vida lá fora é um campo de batalha. É uma briga de foice no escuro. E é super exigente. Exige uma rotina. Exige comprometimento. Exige que abramos mão do controle do nosso tempo. Porque todos temos deveres para cumprir. Não dá mais para ficar de bobeira, só brincando por aí. Não dá para contornar as leis da física. Não dá fingir que a burocracia ou a meritocracia não existe. Precisamos daquilo que enche nossos bolsos, nossas barrigas, nossas casas.

E é verdade. Em muitos casos, muitas vezes, isso tudo é verdade. Só que, o fato dessas verdades estarem pairando por aí, não quer dizer que precisamos virar as costas para o nosso lado mais artístico – como acreditamos que devemos. Não precisamos abafar a voz cantarolante da nossa intuição. Para viver no mundo real, nós não precisamos nos esquecer ou deixar de acreditar na Terra do Nunca. Não precisamos parar de voar até lá, todas as noites – ou sempre que possível.

… Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.

Assim, se for para abandonar alguma dessas perspectivas, que abandonemos de vez a mentalidade do ouou isso ou aquilo. Paremos de tentar viver pela metade. Deixemos de tentar ser só pessoas sérias, nunca inventores de trocadilhos bobos. Cortemos de nossas mentes a ideia de que o caminho das pedras impede que nos aventuremos, vez ou outra, por alguma mata fechada – e vice-versa.

Porque, mesmo se você tentar cortar todas as árvores da floresta, é improvável que consiga acabar com todas as sementes. Uma ou outra sempre resiste. Sempre acaba rachando um pedacinho, que seja, do asfalto. E é bom que o faça. Porque podemos até construir a mais imponente cidade, mas é improvável que consigamos sobreviver sem respirar um pouco de ar puro. Por mais que consigamos construir carreiras de prestígio, é improvável que tenhamos êxito em destruir nossos sonhos mais preciosos. É improvável que consigamos sempre calar a voz que canta em nosso interior. Ou acorrentar a arte que pulula aqui dentro.

Por mais que nos esforcemos, os sonhos são resistentes à beça. Eles nunca desaparecem. Podemos escondê-los, mas nunca exterminá-los. Podemos soterrá-los, mas não ignorá-los por toda a eternidade. Podemos modificá-los várias e várias vezes, mas nunca deixá-los completamente para lá. Porque eles continuam a viver, aqui dentro, até o dia em que se realizarão lá fora. Eles nos preenchem, nos estimulam, nos energizam, até conseguirmos transformá-los em realidade. Até se transformarem em nossa própria história. Até se tornarem uma narrativa digna de ser compartilhada com outros – sejam eles poucos ou talvez muitos.

Por mais que a contrariemos, nossa voz interior continua querendo ser ouvida. Continua vibrando, aqui dentro, até conseguirmos estabelecer uma comunicação. Uma ligação. Até que nos tornemos um – nós e ela; eu e meu eu criativo. Até que passemos a contar nossas histórias da forma mais singular possível – mesmo que, para muitos, isso parecesse, antes, impossível.

Porque, no final das contas, a vida não existe sem arte. Pois, você consegue imaginar a sua vida sem música? Sem filmes? Sem séries? Sem livros? Sem pinturas, esculturas, bordados, danças? Sem a criatividade dos cozinheiros que bolam novos pratos – dos mais gourmets aos mais caseiros? Sem a inovação dos criadores de tecnologias?…

Não dá. Não dá para desviar o olhar. A arte está em tudo – talvez você só não a chame de arte. Mas, seja como for, é algo que, inegavelmente, faz parte do que eu, aqui, chamo de vida artística. Porque nós vivemos em um mundo no qual abundam as mais variadas formas de expressão artística. Nós admiramos, espontaneamente, aqueles indivíduos mais inovadores, que se alçam à condição de artistas, de gênios criativos. Sim, a arte está espalhada por todos os lados. Está em tudo; está lá fora – e está, principalmente, aqui dentro. Dentro de cada um de nós.

… Porque, se não fosse assim, como poderíamos nos sentir tão atraídos pela arte dos outros? Por que buscaríamos sempre novas páginas, novos ritmos, novas histórias?

Vivemos rodeados por arte porque a arte é um estado de espírito. É uma vontade. É parte da nossa essência. A vida artística é uma vida que cabe em qualquer escolha. Eu posso ser uma pessoa mais voltada para as áreas de exatas, de humanas ou de biológicas. Posso ser lixeiro, padeira, matemático, empreendedora, testador de colchões infláveis, adestradora de cavalos albinos, não importa: a arte abarca tudo. Ela enriquece todas as experiências. Dá mais sentido. Torna tudo mais leve, mais desafiador, mais irreverente – ou não reverente.

… A arte está além – além do trivial, do dito normal, do que já foi consagrado como tradicional.

O que quer que você faça; como quer que se enxergue, não importa. Não é essa a questão! Você pode gostar do seu emprego. Pode gostar da correria do dia a dia, de ter a sua agenda lotada de compromissos inadiáveis. Pode gostar do seu lado mais sério, mais esforçado, mais adulto. Pode amar sua casa, seu casamento, seus filhos (espero que sim!). E tudo bem. Reforço: essa nunca foi a questão aqui. Não estou tentando demonizar um lado para santificar o outro, lembra? O intuito, aqui, é só mostrar que existe o outro. Que pode existir outro jeito. Outro caminho. Outro horizonte.

… E que essas visões não são necessariamente excludentes – são, sim, complementares. E, juntas, inclusive, são mais sustentáveis.

O problema surge quando nos forçamos a abrir mão dos contos de fadas que nós criamos – e que podemos criar! – para nós mesmos, e passarmos a viver uma história da carochinha que outros nos empurraram. Abandonamos o presente que realmente queríamos experimentar; o que nos fazia vibrar mais forte, para esperar por um futuro que nunca chega e que não nos empolga. Deixamos de viver de acordo com as nossas fantasias, para aceitarmos as ilusões dos outros.

… Pô, mas fantasia e ilusão não são a mesma coisa?

Não! Não mesmo… Fantasia (aqui) é algo que nós controlamos. Ilusão é algo em que nós somos controlados. Fantasiamos quando escrevemos nossas próprias histórias. Nos iludimos quando acreditamos que existem caminhos mais certos e certeiros do que outros. Fantasiamos quando transformamos os obstáculos à nossa frente em dragões metafóricos, cuja missão é nos impedir de alcançar o tão sonhado tesouro. Nos iludimos quando acreditamos que alguém pode construir uma estrada lisinha, retinha e toda asfaltada para nós. Fantasiamos quando inventamos nossa própria trilha na mata fechada. Nos iludimos quando passamos a pular de uma pedra para a outra, esperando colher mais e mais embalagens vazias.

… Então, tendo dito tudo isso, me explica, por favor: por que temos tanto medo de viver uma vida mais artística? Mais criativa?

Certamente, se pararmos para pensar bem, esta não é a aposta mais arriscada. No final das contas, aliás, talvez seja a aposta mais segura. A mais lógica. A mais recompensadora. O ato de não desistirmos dos nossos sonhos possivelmente é o investimento mais confiável que podemos fazer.

Entretanto, contudo, todavia, o medo existe… Nós tememos nos arriscar nas estradas de lama. Porque não é fácil estar lá. Porque a simples decisão de começarmos a viver nossas vidas de forma mais artística pode causar transtornos gigantescos e imediatos. Pode parecer uma afronta para muitas pessoas com as quais nos relacionamos – vulgo as mais tradicionalistas (como várias vovozinhas o são). Pode soar como provocação. Como irresponsabilidade. Podemos querer, afinal, abrir mão de coisas que antes pareciam extremamente importantes!

… E as pessoas não costumam entender isso muito bem.

Porque nós somos personagens para elas, lembra? Elas não gostam lá muito das nossas novidades. Elas preferem nosso lado mais previsível. Que parece mais centrado. Mais equilibrado. Mais paradinho. Se for para fazer algo novo, que seja mais do mesmo. Que siga a mesma linha de ação, de raciocínio – de coerência.

Por isso, não se engane: sempre que você quiser se arriscar fora do caminho das convenções, vai ser difícil. Especialmente no começo. Porque, por mais que eu não conheça a sua história, eu sei o quão difícil é querer mostrar para o mundo tudo o que existe de mais singular dentro de nós. Porque, quem vai querer te escutar? Quem vai querer ler o que você escreve?

… Ainda mais se forem obras tão diferentes quanto você é?

É difícil mesmo, vai por mim. Principalmente no início, quando as coisas ainda estão meio desajeitadas. Quando nos falta experiência. Quando ainda não dominamos qualquer técnica. Sentimos que patinamos. Ficamos sem lenço nem documento. Sem saber como dar fluidez para os nossos movimentos. Sem entender como é possível engatarmos em uma caminhada. Porque, ué, não conhecemos ninguém. Não existe nenhuma rede de segurança. E parece que sempre tem um buraco à nossa espera, entre cada passo que damos ou queremos dar.

Pois é… É nessas horas que, acima de tudo, precisamos de um pouco de apoio. Eis o momento em que mais precisamos de uma palavra de incentivo. Algo que nos permita seguir em frente, persistir. Algo que nos faça acreditar. Acreditar que podemos nos embrenhar nessa mata fechada. Que podemos criar nosso próprio caminho. Que podemos acreditar em nós mesmos.

… Mas, normalmente, não é isso o que acontece.

Infelizmente, é nessa fase que a maioria de nós recebe o oposto do que precisamos. Ao invés de termos nossa curiosidade incentivada, somos desencorajados. Ao invés de termos nossa ousadia compreendida, somos tripudiados. Ao invés de fermento para ajudar o bolo a crescer, recebemos palavras que nos diminuem. Que tornam o solo árido. Que nos tiram a base. Dizem que nós não levamos jeito para a coisa. Dizem que o que queremos não tem futuro. Não dá dinheiro. Não é viável. Não é possível. É só um passatempo. Dizem que não nos levarão a sério. Dizem que nós não daremos conta. Que somos feios demais. Somos gordos demais. Somos afeminados demais. Somos avoados demais. Dizem exatamente aquilo que nós não precisamos ouvir. Somos alvejados no ponto em que, justamente, dói mais. Onde quer que demonstremos mais fragilidade.

… E, só para arrematar, ainda dizem que tudo isso é para o nosso próprio bem.

E nós, invariavelmente, aceitamos essas críticas como se fossem verdades – verdades absolutas. Porque estamos completamente expostos. Porque a arte faz com que abramos nossos peitos. Estamos nus no centro do palco. Estamos na posição mais vulnerável que já conseguimos nos colocar. Ainda estamos nos encontrando e, portanto, não temos nem mesmo a confiança necessária para bancar nossas vontades, nossos sonhos – exceto, talvez, da boca para fora. Não temos provas que justifiquem que é possível, sim. Não temos prática nem conhecimento que nos assegure que podemos, sim. Ainda não temos os recursos necessários para contestar, para nos afirmarmos. Para comprarmos qualquer desafio. Para nos sustentarmos. E para nos protegermos.

… Então, dói. As críticas, as rejeições, a falta de apoio, tudo dói. Dói bastante.

E, aí, desavisados, se sentindo desencaixados, muitos de nós abandonam a trilha artística antes mesmo de começar. E é compreensível que o façam. Talvez, de fato, seja mais fácil tomarmos um caminho dito convencional, comum, normal. Um caminho aceito por todos. Um caminho cujas pedras já foram aclamadas por multidões. Sim, talvez seja mais cômodo fazê-lo. Seja mais confortável desistir dessa loucura toda.

… E, se o que busca for comodidade, conforto e aceitação, talvez esse realmente seja o caminho certo para você.

Até porque, esse ainda nem é o pior cenário. Ah, sim, você achou que era fácil assim? Não, nada disso. Eu disse que a coisa era difícil. Portanto, calma lá, jovem padawan! Nós ainda precisamos escavar mais um pouco antes de chegar ao fundo do poço

Porque existe algo mais trevoso do que receber uma enxurrada de críticas. Porque, se aprendermos a nos defender ou blindar, as críticas – mesmo as mais ferrenhas – podem servir de combustível. Podemos sempre aprender a usar a força delas para remar na direção contrária (não é fácil, mas é possível).

… Agora, o que nós fazemos quando, simplesmente, não recebemos nada?

O que acontece quando agimos e o mundo parece não nos dar a menor bola? Quando subimos no palco e descobrimos que a plateia está vazia? O que acontece quando fazemos os mais extraordinários malabarismos com espadas flamejantes, e as pessoas se limitam a virar a cara? A fechar a janela? A fingir que não estamos ali? Que elas não nos enxergam?

… O que poderia ser pior do que a indiferença?

Nada. Nada dói mais do que nos sentirmos ignorados. Dói muito sermos tratados com descaso. Dói demais passarmos batido. Ficarmos no vácuo. Nos sentirmos invisíveis. Insignificantes. É uma dor dilacerante quando resolvemos dar o impulso – o salto da fé –, decididos a enfrentar todos os nossos piores medos e… ver que nada aconteceu. Nada mudou. Parece que, mesmo com todo o nosso empenho, no final das contas, nada do que fizemos fez a menor diferença.

… E isso dói. Dói horrores – é a dor mais deprimente que eu já senti.

No entanto, por mais doloroso que seja, hoje eu digo que nós precisamos acreditar: porque fez, sim, diferença!

Aqui, agora, olhando para trás, eu consigo dizer que tudo o que eu fiz, até este momento, fez toda a diferença. É impossível que não tenha feito. É fisicamente, cientificamente, metafisicamente inadmissível que não tenha feito! Porque toda ação sempre gera uma reação. Então, façamos uso dessa lei! Acreditemos nessa máxima (até que ela já não nos sirva mais).

… Acredite: fez diferença!

Talvez você só precise dar um pouco mais de tempo para conseguir notá-la. Talvez você só não esteja olhando do ângulo certo, para o lado mais propício. Porque, no mínimo, você já mudou. No mínimo já fez uma tremenda diferença para você. Você já adotou uma nova perspectiva. Um novo horizonte. Já superou limites, bloqueios. Já se arriscou a dar uns passos mais atrevidos. Então, aproveite isso. Tome isso como um sinal para seguir em frente. Para continuar avançando até ganhar ritmo. Intensifique sua caminhada.

… Porque fez diferença, sim!

Vá lá conversar com aquela pessoa desconhecida. Vá até aquele ser cujo olhar tem um brilho diferente. Continue tornando seus passos mais e mais diversificados. Mais e mais imprevisíveis. Insista não por pentelhice ou chatice – mas porque vale a pena. Porque encontrou algo que faz sentido para você. Que desperta o melhor aí dentro. Algo que traz à tona o seu herói. A sua melhor versão.

Então, por favor, supere os nãos! Bata nessa porta até que alguém abra! E, se ninguém abrir, use suas ferramentas, suas chaves! Ou entre pela janela… A casa é sua!

… Porque, ué, é na sua própria casa que você está tentando entrar, não?

Porque, oras, de que adianta tentar invadir a casa do vizinho? De que adianta ficar obcecado pela grama dele? Ou você abre essa porta, ou você abre. De nada vai adiantar se outra pessoa tentar abrir – precisa ser você. Do contrário, tudo o que encontrará pela frente será só mais uma construção vazia, sem graça – mais uma grande pedra, mais um bando de tijolos entulhados.

… Ah, mas será que, de novo, isso tudo não é algo lindo de se dizer, mas difícil de colocar em prática?

Afinal, já não estamos cansados de ouvir mensagens desse tipo? Sim. Muitos de nós estão. Muitos ouvem, ouvem, ouvem essas palavras sendo repetidas, de novo e de novo… e nada muda. São só palavras de motivação (extrínseca). São só caixas vazias, que não fazem muito sentido. E, por isso, tais ideias não perduram tempo o suficiente para causar qualquer transformação. São só fogos de artifício. Fogo de palha.

E, por isso, para muitos de nós, essa dor – a dor da indiferença – parecerá insuportável. Para muitos, o fundo do poço será encarado como a necessária faixa de transição. É a hora do chega. Do basta. Do já deu. É a gota que faltava para o copo transbordar. É hora de jogar a toalha. De, enfim, se dar por vencido. De colocar o rabo entre as pernas e buscar um canto escuro onde possamos nos esconder.

Porque, ali no fundo, olhando lá para cima, talvez já nem pareça tão ruim assim ser só mais um. Mais um Zé Ruela no meio da massa; mais um grãozinho de farinha no bolo. Mais uma sardinha na lata. É melhor ser mais um do que um ninguém. É melhor ser mais um do que um zero à esquerda. Um inútil, dispensável, descartável.

… É, é sempre uma opção voltar atrás.

Ou não. Porque, para os que almejam fazer diferente; para os que não se conformam em viver uma rotina de dias repetidos; para os que não desejam passar o resto da vida correndo atrás de troféus lustrosos para colocar na estante; para os que querem ir além do sofá na sala, ousando experimentar o frio na barriga de estar no palco, atuando, desistir não é uma opção!

… Nunca foi. Nunca será.

E, veja, eu estou falando algo que eu mesmo já li um milhão de vezes. Só que, de vez em quando, eu me pego precisando ler essas palavras de novo. Para que eu me lembre de acreditar. Para que eu me lembre de não desistir. De não ceder ao que eu achava que deveria ceder; só para fazer o que parecia que eu tinha que fazer; só para conquistar o que eu pensava, lá atrás, que era mais certo conquistar.

… Eu preciso, sempre, lembrar, de novo e de novo, que é preciso confiar.

Porque, no final das contas, confiar não é ter certeza. Confiança não é arrogância. É a tranquilidade diante da eterna incerteza. Não é um fechar de olhos para caminhar em linha reta – afastando, eliminando, passando por cima de tudo o que surge na frente. É ter jogo de cintura. É um contínuo abrir e fechar de caixas para novas mudanças. É aprender a dançar, faça chuva ou faça sol.

Confiança não é um levantar de nariz para parecer convicto. É se divertir com a falta de respostas. É criar uma busca a partir disso. Confiar não é planejar todos os meus próximos passos. Não é vencer uma corrida. É me permitir descobrir tudo e nada, ao mesmo tempo – no meu tempo. É ter paciência para caminhar no meu ritmo. É me dar o meu próprio espaço – o espaço que preciso para fazer florescer a vida que almejo.

Confiar é acreditar. Acreditar que podemos brincar com as certezas mais fugazes e as dúvidas mais duradouras. Porque, quanto menos eu acredito que sei, mais eu acredito em mim mesmo. Porque, o fator mais fundamental e determinante, para alcançarmos qualquer destino que queiramos, é acreditar. É termos confiança em nós mesmos. É nos permitirmos sonhar. É aprendermos a imaginar – a criar nossas próprias fantasias.

E, assim sendo, eles até podem rir. Podem torcer o nariz. Podem ser indiferentes. E vai doer. Vai doer um bocado. Eles podem dizer que é ruim, é inútil, que não está com nada. E pode parecer verdade naquele momento – mas parecer não é ser. Pode parecer verdade quando ainda nos faltam técnicas e experiência. E tudo bem. Porque nós sabemos que não sabemos. Sabemos que ninguém sabe de tudo. Sabemos que vamos errar – porque todos erram. E, oras, se for para errar, erremos pelo excesso! Erremos por continuar tentando. Por continuar fazendo. Por continuar acreditando.

… Porque a técnica chega. A experiência chega. Desde que continuemos fazendo. Fazendo até acontecer. Até elas aparecerem. Até serem aprendidas. Inventadas. Criadas. Renovadas.

Por isso, quando faltar técnica, experiência ou qualquer birosca da parafuseta que pareça tão necessária, deixe que sobre ousadia. Deixe-se transbordar de atrevimento. Divirta-se. Faça porque é isso que você quer fazer, não porque você tem que provar alguma coisa para alguém. Não porque você está esperando chegar em algum lugar. Faça porque você quer fazer.

… Porque desistir seria muito mais doloroso do que cair tentando fazer o que você quer fazer!

Então, encare essa dor. Enfrente o medo, a frustração, a rejeição. Discorde, sim, da palavra dos mais velhos – dos críticos de plantão; dos contestadores de histórias alheias. Porque eles podem até ter muita bagagem nas costas, mas não é a mesma que buscamos. Eles podem achar que sabem muito, mas ninguém sabe o que queremos para nós. Isso eles não têm como saber. Isso só nós podemos compreender. Só nós podemos criar, com as nossas próprias pernas. Porque disso eles têm medo. Muito mais medo do que nós, que ousamos perseguir esse sonho.

Porque, se é diferente, eles não estão acostumados. Eles nunca viram. Eles não conhecem. Eles não aceitam. Nós recusamos. Nós não queremos. Nós dizemos, para nós mesmos e para os outros, que esses indivíduos estranhos não servem para isso.

… Não dizemos?

Nós dizemos. Muitas vezes, sem perceber, despretensiosamente, nós dizemos coisas vergonhosas. Queremos colocar os outros em seus devidos lugares. Sentimos prazer em falar mal. Em tirar sarro. Queremos destilar nosso doce veneno (talvez por medo de o engolirmos nós mesmos). Queremos fazer os desbravadores repensarem suas atitudes. Queremos vê-los fraquejar, hesitar, dar um passo atrás. Queremos que se sintam pior do que quando começaram. Queremos fazê-los passar vergonha.

… Porque assim, talvez, nós nos sintamos menos mal de termos desistido.

Nós fazemos isso. Fazemos isso com os outros – e com nós mesmos. E nada poderia ser mais cruel.

… Porque a vergonha dói. A vergonha nos corrói por dentro.

Então, sempre que apontamos o dedo para alguém (lá fora ou aqui dentro); sempre que zombamos do texto, da dança, da atuação, do canto de outra pessoa (ou de qualquer outro tipo de obra, só porque tomou um caminho exótico), nós somos eles. Nós nos tornamos os tais agentes do status quo. Aqueles que não querem o que é diferente. Que não aceitam o novo, o esquisito, o inovador. Aqueles que não entendem que invenção alguma nasce bonitinha, perfeitinha. Todas nascem carecas, banguelas e com cara de joelho. E, ainda por cima, capazes de fazer muita caca. E de nos fazer passar muitas noites em claro.

… Assim, enquanto nós formos eles, estamos alimentando um mundo de críticas, de medos; de escassez – não de empatia, de ajuda; de apoio.

(Agora, isso não significa que nós tenhamos que gostar de tudo. Não temos. Mas não estamos falando de gostos aqui, sim?).

Por isso, se você precisa de apoio, antes de mais nada, apoie. Ofereça apoio, base, sustentação para alguém. Será muito mais fácil conseguirmos apoio se todos estivermos dispostos a estender a mão, uns para os outros. Cultive o apoio, mesmo que você nunca o tenha recebido. Invente, por isso mesmo, novas formas de apoiar. Cultive o apoio por onde quer que você passe, porque só assim você poderá igualmente colhê-lo.

… Porque é plantando que nós criamos novas culturas.

E, vai saber… Talvez adubando a terra, sua colheita seja bem mais proveitosa. Talvez ela seja tão abundante, tão majestosa, que dê o suficiente para compartilhar com outros tantos mais. Talvez você estenda uma mão e receba outras tantas em retribuição. Talvez você plante uma semente e colha árvores. Talvez, sem perceber, você acabe gerando um círculo virtuoso. Talvez, pouco a pouco, já não precisará mais se encaixar em lugar algum, pois terá criado um espaço para chamar de seu. Ou de muitos – muitos nomes, muitas verdades, muitos caminhos.

… E, talvez, aí, tudo se torne muito mais sustentável em nossas vidas.

 

***

 

Agora, antes de nos aprofundarmos mais na necessidade de apoio – de compaixão, empatia; amor! –, vamos deixar muito claro quem é esse eles de quem tanto falamos. O eles que adora manter as coisas como estão. O eles que não é lá muito fã de liberdades (e criatividades). O eles que gosta de manter um papo sério; de tentar conservar eternamente os compromissos firmados.

… O eles que são os outros, quando nos atazanam, mas também somos nós, quando assumimos comportamentos mais rígidos e/ou zombeteiros.

Seja como for, eles também têm de ganhar um nome, não é mesmo? Por mais que eles não gostem de invenções macgyvernianas – a fim de conhecê-los mais um pouco e entendê-los melhor, passemos a chamar essa parte da nossa história de… Editor.

 

 

 

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