Apresentação

Sabe qual é uma das coisas que me dá mais prazer na vida? Estudar. Sim, você leu certo: eu disse estudar. Eu sei que isso pode soar estranho, principalmente em uma sociedade como a nossa, em que a grande maioria das escolas, faculdades e cursos empregam currículos rígidos, praticamente talhados em pedras (ou grades). Somos ensinados, desde cedo, que existem alguns conteúdos obrigatórios, que todo mundo deveria saber – nem que seja só para passarmos nas provas e vestibulares da vida.

Assim, a gente se acostuma à necessidade de ler aquelas trocentas obras para a fuvest – livros que quase ninguém lê (à exceção de um ou outro resumo), porque eles parecem chatos demais. A gente tem que decorar o que são plantas briófitas e pteridófitas. A gente é obrigado a tentar entender como extrair fórmulas mirabolantes a partir de um conjunto de polias. Porque antes a gente já aprendeu a tabuada. A gente já decorou aquelas datas históricas, daquelas pessoas que viveram há muitos anos, lá na europa. Já sabemos de cor e salteado quais são as capitais de cada linha imaginária demarcada em um mapa.

Bom, se isso; só isso, fosse estudar, então eu passaria bem longe de qualquer livro ou de qualquer outra forma de obter um novo conhecimento. Porque eu nunca gostei de decoreba. Eu nunca gostei de ter que fazer provinhas para comprovar que assimilei algo. Nada disso nunca fez muito sentido para mim. Eu poderia até tirar boas notas, mas sempre naquele esquema de apreender o máximo em um semestre (ou uma noite antes, no caso de física e suas famigeradas polias) e descartar logo em seguida, no semestre seguinte.

Isso não é estudar. Pelo menos, não é o que eu chamo de estudar, aqui. Para mim, estudar é me abrir para o mistério. É me aventurar por terras distantes, munido de toda curiosidade que consigo reunir. Estudar não é competir pelas melhores notas: é acessar fontes de conhecimento, Santos Graais que me permitam ser melhor do que eu era ontem. Melhor e, por vezes, mais confuso… Sim, porque estudar é deixar tudo mais complexo no meu interior, gerando, em alguns momentos, bagunças assustadoras.

Só que é estudando, também, que eu aprendo que o medo surge do contato com o desconhecido. E é estudando que eu aprendo a botar ordem na casa, de novo. E a semear um pouco de caos, logo depois. É estudando que eu aprendo a criar novas lógicas e sentidos – ao mesmo tempo em que ganho o poder para subvertê-los e reinventá-los. Estudar é me tornar mais flexível, mais resiliente. É afiar o machado, ao invés de sair querendo derrubar todas as barreiras só com a força bruta.

Dez anos atrás, quando me formei na faculdade de publicidade e propaganda, imaginei que nunca mais pisaria em uma instituição de ensino. Eu queria passar um bom tempo longe de qualquer livro, de qualquer trabalho em grupo ou avaliação pedagógica. Sério, naquela época, esse era o meu grande desejo. Porque eu detestava estudar. Detestava ser obrigado a trilhar o mesmo caminho que todos os meus colegas também estavam trilhando. Eba! Vamos lá, garotada, todos juntos, um ao lado do outro, aprendendo as mesmas coisas, dos mesmos jeitos, de novo e de novo, e de novo… É sério que vocês chamam isso de estudar?

Então, tô fora.

E, veja, talvez eu não seja um bom parâmetro para falar sobre esse tipo de assunto. Afinal, eu não sou uma pessoa que se encaixa muito fácil nas coisas. O máximo que consegui trabalhar dentro de uma grande empresa – daquelas com prédios gigantescos – foram dois meses. Dois meses e eu pedi para sair. Juntei as três coisas que tinha dado tempo de colocar em cima da minha mesa e fui morar em outra cidade.

Usei o pouco que tinha sobrado do que ganhei naqueles dois meses, comprei um bando de tecidos com uma ex-namorada e decidimos tocar uma loja de roupas próprias, com a ajuda da mãe e do irmão dela. Aprendi, então, algumas coisas sobre modelagem, costura e a criação de vestidos, blusas, calças. Aprendi um pouco sobre varejo, sobre vendas, sobre consumidores. Aprendi sobre finanças, negócios próprios e colaboradores. Mas, no final das contas, aquela ideia maluca e impulsiva não deu certo. A loja fechou as portas depois de um ano e pouco. E tudo bem. Pelo menos eu não estava engravatado, atrás de uma mesa, fazendo apresentações em PowerPoint (e nada contra quem faça isso. Só não era para mim).

Depois disso, fomos ajudar os pais dela na loja e estúdio de fotografia que eles tinham, na mesma cidade. Aprendi a usar uma câmera. Fui fotografar casamentos. Aprendi a usar uma máquina de sublimação. Criamos vários produtos diferentes. Lutamos com a crise que rondava há tempos as lojas de revelação fotográfica – com o mundo digital batendo cada vez mais forte à porta. Aprendi o que era assumir um negócio familiar. Aprendi o que é ter duas das suas três lojas destroçadas por um incêndio. Aprendi a ter que levantar do meio-fio onde estava sentado, desolado, observando aquela cena, porque outras pessoas contavam comigo. Aprendi a sacudir a poeira, a lavar o que antes parecia perdido. E aprendi que, algumas vezes, nem todo esforço do mundo basta para fazer algo funcionar.

E tudo bem.

O que eu iria fazer dali em diante? Depois de dois aparentes fracassos, o que me restava?… Me restou voltar para a casa dos meus pais, de novo. Porque eu tinha perdido tudo, até meu relacionamento. Supostamente, eu estava de volta à estaca zero, apenas com algumas experiências a mais.

E, só para ajudar, eu estava deprimido. Claro que, na frente dos outros, eu fingia que não. Eu fingia que estava tudo bem. Que eu era otimista. Que poderia extrair o melhor de tudo, sempre. Mas não estava tudo bem. Não ali, naquele momento. Eu me sentia perdido, menor, vazio. Enquanto eu largara tudo para me arriscar, para tentar fazer algo diferente, meus amigos tinham seguido no caminho mais tradicional e, agora, estavam em uma situação mais privilegiada do que a minha. E com perspectiva de melhorar ainda mais a curto, médio e longo prazo. E eu? Tinha perspectiva de quê?

Tentei fazer algumas entrevistas, voltar para o tal mundo corporativo. Só que, agora, o mundo corporativo é que parecia não me querer mais. Talvez porque eu nunca fui muito bom nessa história de dinâmicas em grupo e entrevistas. Nunca fui bom em mostrar o que os outros queriam ver. E isso era tudo o que, na época, eu tinha para tentar mostrar – afinal, eu não fazia a menor ideia de quem eu era, do que eu gostava, do que eu queria fazer da minha vida. Quais eram os meus pontos fortes? Quais eram minhas principais dificuldades? Por que eu queria trabalhar naquela companhia e não em nenhuma outra no universo?

Eu não fazia a menor ideia. E, para ser sincero, aquelas respostas pareciam ter pouquíssima importância – eram só mais um tipo de prova, de chatice para me perturbar o sono. Era algo que eu estava fazendo porque não tinha nada melhor para fazer. Porque não enxergava nenhuma alternativa. Porque esse era o caminho que deveria ser seguido, certo? Se existia uma estrada toda asfaltada, retinha, bonitinha, gostosinha, traçada com maestria bem na minha frente, por que virar as costas? Seria burrice. Seria loucura! Se havia algo que eu tinha que aprender com as minhas experiências anteriores é que não valia a pena me desviar do óbvio, do que é certo, é garantido. Eu tinha a obrigação de ser bem-sucedido, de acertar, desta vez; de fazer bem-feito – de ser perfeito.

E, quanto mais eu tentava agir assim, mais eu me sentia afundando em um lamaçal. Quanto mais eu buscava avançar nessa estrada, mais eu me sentia patinando no mesmo lugar. Algo, definitivamente, não estava dando certo. Algum pedaço daquela engrenagem não estava funcionando como eu esperava que funcionasse. Mas, se parece funcionar para tanta gente, por que não funcionaria comigo? Oras, deixa de criancice, isso tem que funcionar! Força só mais um pouquinho que você se encaixa…

Ai, ai… Se existe um pensamento que me dá calafrios, é esse aí. Se um monstro intergalático chegasse para me devorar, no meio da noite, a coisa mais terrível que ele poderia me dizer é: se dobra só mais um pouquinho, que aí você se encaixa com perfeição na minha boca. Não vai doer, eu prometo. São só algumas mastigadinhas…

Felizmente, eu nunca fui bom – mesmo! – em me encaixar. E, felizmente, eu nunca enfrentei dificuldades em relação a não ter o que comer, não ter onde morar, não ter um abraço ao qual recorrer por conta disso. Porque a minha família estava lá, ao meu lado, o tempo todo, com uma condição privilegiada. Pronta para me dar todo o suporte. Para me dar tempo de me levantar. De me embrenhar por novos caminhos. Esperando pacientemente até que eu recuperasse o fôlego para novas caminhadas; para me arriscar mais um pouco. E de novo. E de novo.

E é por isso – principalmente por isso – que hoje eu estou aqui. Por isso você pode, agora, ler estas palavras. Porque eu recebi muita ajuda quando eu mais precisei. Porque, quando nada estava dando certo, eu vi várias mãos estendidas, na minha direção, querendo me dar o apoio necessário para que tornasse a me erguer. Para que levantasse a cabeça e recomeçasse.

Eu aprendi muitas coisas com esses fracassos. Com os que eu já contei e com os que vieram depois disso. Pois ainda tive uma terceira tentativa no mundo dos empreendedores – e tornei a fechar as portas, depois de cinco anos. Cinco anos em que aprendi o que é ter de acordar cedo para cruzar a cidade e me enfurnar em um galpão gelado. Um galpão onde eu ficava a maior parte do tempo sozinho. Uma experiência que me ensinou a lidar com todas – absolutamente todas – as áreas de um negócio. Da produção à faxina; da contabilidade ao TI; da rotulação e embalagem à entrega e distribuição.

E, em meio a tudo isso, enquanto eu ficava sozinho naquele galpão – às vezes, das seis da manhã até às onze da noite –, eu também aprendi a respirar. Entre uma obrigação e outra, aprendi a aproveitar um pouco do tempo que me era dado para me divertir, para desanuviar a mente. Como?

Estudando.

Pois é… Estudando. Comecei a estudar, sim, sem saber que era isso que eu estava fazendo. Sem parar para pensar nesses termos. Afinal, eu não estava lendo o que eu lia porque me sentia obrigado a fazê-lo. Nem, tampouco, porque havia alguém me cobrando, exigindo que eu o fizesse. Eu estava lendo porque aquilo fazia sentido para mim. Porque ressoava com o que já existia aqui dentro – ao mesmo tempo em que ampliava meus horizontes, me mostrando novos mundos, novas possibilidades. Eu estudava – e estudo! – sem ficar premeditando como aquilo poderia ser útil, no futuro. Não havia um fim certo em mente; não existia um diploma em vista, uma prova no dia seguinte, me esperando: eu estudava como um meio. Um meio de ir além. De me sentir bem.

E, de tanto ler, me veio a vontade de começar a escrever. Escrever o quê? Eu não fazia a menor ideia… Até então, tudo o que eu tinha escrito eram alguns trabalhos para a escola e faculdade. E uns três gibizinhos, quando bem pequeno. Gibizinhos com as personagens da Turma da Mônica, que minha vó e meu pai ganharam de presente. Ok, eu sei: isso é bastante constrangedor. Porque… poxa, que ousadia é essa, agora? Que história é essa de querer se meter a escritor, sem nunca ter feito nada de significativo nesse sentido? Sem nunca nem ter conseguido se destacar nas redações do colégio? Para com isso! Se liga, pô, dizia uma voz aqui dentro, debochando de tamanha pretensão.

Só que a vontade não parava de crescer. Crescia todo dia. Quanto mais eu lia; quanto mais aprendia, mais eu queria escrever. Queria comunicar alguma coisa que estava presa aqui dentro, ansiando pela libertação. Sim, porque, naquele momento, aquilo tudo que existia dentro de mim ainda era uma coisa; um treco, um cacareco, sem forma, sem rosto, sem nome.

Assim, morrendo de medo – me sentindo ora um impostor prestes a ser desmascarado, ora um praticante de magias proibidas –, comecei a escrever. Esbocei uma história sobre um pirata que se juntava a um gnomo rabugento, uma sacerdotisa que ocultava um terrível segredo, um curupira selvagem e vários outros personagens (mais?) peculiares, na busca por um tesouro perdido. A trama, claro, era fraca, cheia de clichês, de redundâncias, de frases truncadas e diálogos superficiais… Só que a questão não é essa. O importante, aqui, é que, apesar de todos os pesares, aquela era a minha história.

Era uma história que havia saído daqui de dentro. Era uma história que começava a dar forma, rosto e nome para os mundos que me habitavam. E ela refletia – de um modo surpreendente, olhando agora para trás – o momento que eu estava passando. Afinal, eu era o pirata – um ser errante, navegando entre desejos e comportamentos um tanto caóticos, pouco convencionais. Eu era o gnomo, a sacerdotisa, o curupira e cada um dos meus personagens. Eu era, inclusive, o tesouro perdido que todos buscavam.

Claro que eu não percebi nada disso na época. Para mim, eu só estava escrevendo. Escrevendo uma história, brincando com uma trama, me divertindo com alguns personagens. Óbvio que, em algum lugar, eu sonhava, sim, que aquele livro pudesse ganhar o mundo. Que eu pudesse me tornar um escritor famoso, capaz de juntar filas e mais filas nas noites de autógrafo. Quem nunca sonhou em ser um escritor, uma atriz, um dançarino, uma cineasta, um pintor, uma cantora? Quem nunca quis ser reconhecido por seus talentos artísticos? Quem nunca desejou fortemente ganhar a vida fazendo aquilo que tanto ama?

Eu sonhei muitas vezes esse sonho. E continuo sonhando.

Só que, agora, não é mais um sonho pautado em reconhecimento. Claro que – de novo – algumas partes da minha história ainda desejam muito isso. Alguns dos personagens que me habitam ainda querem a glória, a fama, a fortuna. Mas outros, mais serenos, mais risonhos, querem mais – muito mais do que esse tipo de tesouro…

Porque hoje eu percebo que esse desejo por reconhecimento nunca foi a função daquela primeira história. A arte entrou na minha vida não para me fazer brilhar perante os outros – e, sim, para fazer brilhar algo aqui dentro. A arte, como os estudos, se mostrou um meio, não um fim. Um meio de despertar uma vontade mais profunda. Um caminho no qual cada um dos meus passos fez muito mais sentido. A arte me preencheu. Me transbordou. Tornou-se algo capaz de enriquecer as minhas experiências, nas mais diversas áreas.

A arte colocou um sorriso no meu rosto, mesmo quando estou sério. Mesmo quando é preciso derramar algumas lágrimas. A arte mudou a minha forma de olhar para o mundo. Para as pessoas. Para tudo. E eu me senti mais vivo com ela por perto. Mais confiante. Havia algo maior pulsando, em mim. Em cada emoção. Em cada pensamento. A cada escolha que eu podia fazer. Eu senti, pela primeira vez, que não precisava seguir um padrão, só porque parecia a coisa mais lógica e sensata a se fazer. A mais comum. A mais garantida. Porque a arte não é garantia de nada. Não é regra ou regrada. Não é grade ou prova. Não é vitória ou bênção. Ela, insisto, é um meio. Um meio de dar vida aos meus mundos – mesmo que eles continuem apenas dentro de mim. Nas minhas folhas soltas. Nas minhas histórias inacabadas. Nas minhas gavetas. Mesmo que eles só alcancem o exterior através daquele meu sorriso. No meu olhar.

E quando a arte realmente nos arrebata – quando nós a abraçamos, sem medo ou vergonha –, a criatividade flui com naturalidade. Por vezes, inclusive, ela jorra. Abunda. Nos invade com um turbilhão de ideias, associações, conexões. E isso é fascinante. Empolga. Seduz. Me deixa eufórico, cantando, dançando sem mais nem menos. Sem me importar com o que vão dizer, o que vão pensar. Eu já não estou aqui, preso com os pés no chão… Estou alguns bons centímetros acima, extrapolando o que pareceria usualmente razoável, flutuando, leve, desimpedido. É ridículo? Pouco importa: eu posso ser ridículo!

E foi assim que nasceu um segundo livro. Veio de uma vontade imensa de integrar as ficções com meus estudos. Floresceu com tanta força, mas tanta força, que acabou com mais de mil páginas. É um livro que teve minha mãe como única leitora – e que continuará assim, provavelmente, por toda a eternidade. Era um livro com trinta e dois capítulos. Um livro que poderia ser lido, igualmente, de trás para frente. Ou em ordens aleatórias. Um livro que misturava prosa, música, poesia e, até, imagens desenhadas com palavras.

… Sim, é um conjunto bem inusitado, eu sei.

Um conjunto que não surgiu do nada, do dia para a noite. Foram quatro anos escrevendo. E reescrevendo. No início, o enredo era bem normal. Era só mais uma história de fantasia. Após um ano e meio, entretanto, me vi diante de um fim que não se encaixava naquele começo. Os capítulos derradeiros eram poemas, músicas, construções mais livres (e, antes, inimagináveis). Assim, me vi diante de duas alternativas: reescrever o livro inteiro, para que fizesse jus a tão peculiar desfecho; ou reescrever o final, para que se ajustasse ao restante do livro como um todo.

… E aí? O que você acha que eu fiz?

Sim; eu reescrevi o livro inteiro. E o final surgiu ainda maior. E tornei a reescrever tudo, uma vez mais. E, hoje, aquelas páginas estão em uma gaveta, no meu quarto. E, ao mesmo tempo, elas estão aqui, comigo. Elas são uma parte de quem eu sou. Porque aquele livro me mudou de um modo visceral. Aquele livro, tão diferente, fez uma baita diferença na minha trajetória.

Diante dele, dei passos significativos em direção a uma voz mais autêntica, mais distinta, mais minha. Até hoje, vez ou outra, ainda enxergo paralelos entre o que acontece à minha volta e as narrativas descritas naqueles trinta e dois capítulos. Existem palavras, lá dentro, que continuam ecoando forte, sempre presentes, em muito do que faço.

Porque, oras, foi durante aquela maratona de mais de mil páginas que comecei a me dar conta das conexões que existiam entre as ficções que eu criava e a minha realidade. Entre meus estudos e as mudanças que aconteciam dentro de mim. E, quanto mais eu escrevia e reescrevia cada uma daquelas passagens, mais sentia vontade de estudar e me aprofundar. E quanto mais eu estudava e aprendia, mais sentia vontade de escrever – uma motivação à la Tostines.

Nesse meio tempo, como já adiantei, minha nova empreitada no mundo dos negócios também naufragou. E, assim, lá estava eu, de novo, encarando um horizonte estranho. Um horizonte sem caminhos prontos, sem planos perfeitos, sem nada certo. Para onde quer que eu olhasse, não enxergava nenhuma estrada asfaltada a qual pudesse (ou quisesse) recorrer – um desvio, uma rota de fuga que fosse…

Eu já havia ido longe demais. Já havia cruzado um daqueles pontos sem retorno. Tentar, agora, me encaixar no mundo corporativo seria um atestado de frustração diário. Além disso, eu já havia experimentado três negócios completamente distintos – e não me encontrara em nenhum deles. Não amara nenhum deles. Por isso, eu tampouco queria abrir uma nova empresa, fazendo algo pensando só em ganhar dinheiro; algo que não me realizava. Eu cansara disso também.

… E, só para não ajudar em nada, eu continuava olhando para o lado, vendo todo mundo progredir, melhorar de vida, ficar mais rico, com mais bens, com carros melhores, casando, tendo filhos… E eu? Onde eu estava? Tinha feito o que da minha vida?

Pois é… De novo, lá estava eu diante daquelas velhas angústias e comparações dolorosas.

Alguma coisa parecia mesmo estar seriamente errada. E, se estava, o problema, obviamente, era comigo. O problema estava nas minhas escolhas, nas minhas ações. Estava nas portas que escolhi abrir – e nas portas que deixei fechar, às minhas costas. E agora, José? E agora que você já está aí, encarando esse horizonte, sem nada certo, nada pronto? Faz o quê?

… Bom, eu gosto de escrever… Posso tentar…

– Escrever? – aquela voz irônica ressurgia, sem titubear. – E quando foi que você escreveu alguma coisa decente, hein? Alguma coisa que outra pessoa, que não sua mãe, vai gostar de ler? Alguma coisa que não foi parar na sua gaveta?

… Ah, eu ainda não escrevi. Mas nada me impede de…

– Cara, me escuta: eu só quero o seu bem. É sério! Mas você tem que me ajudar, eu não posso cuidar de tudo sozinho. Você precisa fazer alguma coisa séria, saca? Não dá para ficar brincando de contar historinhas… Diz aí: o que mais você quer fazer, além de escrever?

… Eu… Eu não sei…

– Não sabe? Como assim, você não sabe?!? A essa altura da vida, você tem a pachorra de me dizer que você não sabe?… What a loser! Sério, não dá; assim não dá! Como é que você vai ganhar dinheiro, rapá? Quando é que você vai fazer alguma coisa de útil com a tua vida, hein?

De novo, eu não fazia a menor ideia. Eu continuava sem respostas.

Tudo o que eu tinha era a sensação de estar, uma vez mais, parado, sentado em uma pedra, no meio do nada, encarando o horizonte. Vendo o circo pegar fogo, ao meu redor, na correria desenfreada do mundo moderno, sem entender como poderia me levantar e voltar a caminhar. Eu tinha conseguido – graças à naturalidade com que adotei uma vida mais simples –, guardar uma quantia razoável no banco, mas nada de extraordinário. Tinha minha família para me apoiar, mas não queria transformar isso em uma muleta.

Assim, éramos, basicamente, eu e minhas angústias, minhas dúvidas e medos. Eu e a minha vontade de viver aquela vida mais artística, com a qual tinha me deparado – e que tanto me encantara. Uma vida que, no entanto, parecia tão improvável, tão fora do meu alcance. Porque eu não era um artista. Eu não tinha nenhuma obra-prima para compartilhar com o mundo. Eu gostava de escrever, sim, mas estava longe de ser um Machado, uma Adélia, uma Clarice, um Poe ou um Hermann. Eu gostava de contar histórias, é verdade, só que isso, eu sabia, não era o bastante. Isso muita gente sabia e gostava de fazer. Isso não era, por si só, garantia de nada.

… E, enquanto eu esperei por garantias (e provas), me mantive lá, parado, sentado, naquele mesmo lugar.

Eu me contentava (ainda que descontente) em ficar lamentando como a vida era difícil. Ficava imaginando como seria bom se eu pudesse me levantar e abrir caminho em meio àquela floresta – a selva que enxergava à minha frente e me parecia absolutamente inóspita. Como seria bom viver uma vida digna de grandes desbravadores. Ser como aquelas raras espécimes dotadas de uma coragem sobre-humana. Sim, como seria fabuloso viver uma vida mais parecida com a dos heróis das histórias que tanto amo, e menos como a minha…

Um dia, sem grandes pretensões, fui fazer um curso de contação de histórias, apenas para me divertir. E acabei descobrindo que aquilo não era uma simples brincadeira, um passatempo de pais que querem colocar seus filhos para dormir: é, sim, uma arte. Uma arte que pode, inclusive, virar profissão. Sim, para a minha absoluta surpresa, fui informado que existem pessoas que ganham a vida compartilhando aventuras e semeando metáforas por aí! Que loucura, pensei. Eu nunca poderia nem sonhar que alguma coisa do tipo existisse. Lógico que fiquei fascinado. Claro que quis me aprofundar mais nisso.

Como? Bom, a essa altura já estava evidente que a resposta seria… estudando. E aí, uma coisa puxa a outra, e logo me vi matriculado em uma escola de teatro. É, o mundo dá voltas e lá estava eu, de novo, no papel de aluno de uma instituição formal de ensino. Tinha me sujeitado a isso para conseguir um registro profissional (DRT), que me possibilitaria atuar como contador de histórias no futuro. Que coisa, não?

Só que, dessa vez, a história foi outra. Ao invés de grandiloquentes representações totalmente fingidas e decorebas sem fim (que eu imaginava serem comuns no teatro), encontrei uma liberdade impensada. Teatro era muito mais do que isso (talvez nem fosse nada dessa laia, aliás). Era mais do que um mundo cheio de marcações. Mais do que conseguir chorar, sem grandes esforços, sempre que eu precisasse encenar uma tragédia. Teatro não é um conjunto de truques que tiramos da cartola a fim de emocionar o público. É, sim, uma prática contínua de busca e presença. É vivenciar as mais inusitadas circunstâncias, aqui e agora.

… Teatro é, como toda e qualquer arte, uma fonte infindável de autoconhecimento.

Não por acaso, foi amor à segunda vista. Ah, sim, porque aquele não era o meu primeiro encontro com o teatro. Já havíamos flertado antes, na época da escola. Nossos caminhos já tinham se cruzado, por três anos, em um curso extracurricular (vulgo, não obrigatório).

Assim, aquela não foi a primeira vez que o teatro ampliou meus horizontes. Não foi a primeira (e nem será a última) vez que ele serviu como um campo de experimentação para todas as questões que me inundavam. A diferença é que, dessa vez, eu não estava disposto a abrir mão tão facilmente desse… relacionamento. Porque aquilo deixou de ser só um flerte, um joguinho de conquistas. Uma paixão transitória, impulsiva. Agora eu me sentia pronto para assumi-lo, para apresentá-lo aos meus pais e fazer juras eternas de amor, no nosso casamento. Se antes eu larguei o teatro porque meus amigos tinham se cansado daquela carinha ora triste, ora feliz, desta vez eu resolvi cultivar os novos amigos que ele me deu.

… Eu resolvi confiar nele. Percebi que só assim ele poderia confiar em mim, também. E se abrir comigo. Me contar seus segredos e abraçar os meus. Ser minha companhia nessa jornada. Uma nova fonte de inspiração na busca por uma vida mais artística, criativa e essencial.

Porque eu estava cansado de esperar, de ficar sentado, só olhando ou me lamentando. Eu não queria passar o resto da minha vida na plateia, aplaudindo (ou vaiando) os outros. Eu queria estar no palco, atuando, agindo, me transformando. E me arriscando, todos os dias.

E foi nessa movimentação toda que me dei conta de que a sensação de inércia era só uma sensação. O tempo todo eu estivera me movendo, caminhando, me aproximando mais e mais daquilo que eu realmente buscava. O que, de fato, me era mais caro, mais valioso.

… O tesouro oculto – nunca perdido –, no interior daquela mata fechada.

Uma mata que, se eu quisesse mesmo desbravar, teria de esquecer as comparações com as pessoas à minha volta. Porque nenhuma comparação fazia sentido ali. Porque aquele era um caminho único, só meu. Não existem duas trilhas iguais. Nenhum homem, nenhuma mulher poderia me acompanhar ali dentro. Ninguém poderia, sequer, seguir os meus passos. Eu sempre poderia ter amigos, família e maravilhosas relações – mas aquela floresta era minha; só minha. Nela eu sempre estou por minha conta e risco. Nela tenho que criar minha própria estrada, a cada novo passo. Me arriscar sempre mais um pouco. Mergulhar de cabeça. Dar um salto no abismo…

E foi isso que eu fiz, dia após dia, desde então. Afinal, o que é que eu tenho a perder? Algumas economias? Algumas expectativas do que eu poderia ter sido, mas não fui? Do que eu poderia ter, mas não tenho? Alguns exemplos do que as pessoas se tornaram, e eu não me tornei? E isso importa? Isso realmente importa? Se eu pudesse escolher, hoje, aqui e agora, gostaria de ter a vida de outra pessoa? Gostaria de viver a minha vida de outro jeito?

Não.

Então, pelo amor, se joga. Vai que vai. Porque está tudo bem. Está tudo certo. Porque, quando não existe uma estrada asfaltada para ser seguida, nenhum passo está fora do traçado. Nada está determinado. Nada é absolutamente errado. Tudo faz parte do caminho que se abre; faz parte da experiência, do aprendizado.

Eu posso até não ter muitas respostas para dar, mas aprendi a fazer perguntas que foi uma beleza. Eu posso não ter aprendido a percorrer longas distâncias em linha reta, em alta velocidade, dentro de uma máquina motorizada – mas aprendi a caminhar com minhas próprias pernas. Aprendi a me flexibilizar para lidar com as paisagens que mudam constantemente. Aprendi que, por mais que outros à minha volta tenham uma condição ainda mais privilegiada, eu não preciso de muito para me manter em pé. Até porque, eu aprendi que não preciso sentir vergonha de pedir e receber ajuda. Porque eu aprendi que eu também posso ajudar.

… Posso ajudar com o que eu tenho; com o que eu faço; com o que eu aprendi com tudo isso (e muito mais).

E, mesmo que eu não tivesse qualquer pretensão com esses aprendizados, uma hora eles começaram a se integrar, de novo e de novo. A ganhar um novo sentido. A assumir diversas outras roupagens… Vieram alguns grupos de estudos, de trocas. Veio o coaching. E, agora, veio este livro.

O Criadores do Agora nasceu, primeiro, insisto, da minha vontade de ajudar. De compartilhar as minhas experiências, os meus aprendizados. Porque, sim, eu já recebi muita ajuda nessa vida. Porque, sim, eu sempre tive uma condição privilegiada, que eu sei que muitos não têm. E também porque, nos últimos quatro anos, enquanto eu me exercitava nos palcos do teatro (e da vida), pude sentir claramente o impacto que todos esses aprendizados tiveram em mim.

Eu me tornei alguém mais focado. Mais concentrado. E, ao mesmo tempo, mais leve, mais sereno. Me descobri sempre disposto a escutar, a aprender. Porque eu não entrava naquela sala de aula para me provar ou para mostrar o que eu sabia fazer – porque eu não sabia nada! Tudo o que eu queria era experimentar, aproveitar todas as oportunidades que apareciam na minha frente. E, de repente, eu me flagrei abandonando todas as minhas certezas – e conseguindo me divertir, como nunca antes, com o novo, o incerto, o inesperado.

… Talvez porque o teatro, para mim, seja, lá no fundo, a arte do esvaziamento.

E, de tanto me esvaziar, percebi que agora eu conseguia escutar, com cada vez mais clareza, uma voz cantarolando aqui dentro. Uma voz tão doce. Tão sutil. E tão única. Tão original. E autêntica. Uma voz criadora – e tão criativa…

E, por alguma razão que tampouco ouso tentar explicar, a partir do momento em que eu acessei esse lugar, as coisas que eu fazia passaram a reverberar com mais força nos meus colegas. Eu me descobri, mesmo sem fazer qualquer esforço nesse sentido, sendo colocado em posições de liderança. Simplesmente porque as ideias que saltavam da minha boca – com frequência – faziam sentido. Sentido para mim – e também para os outros.

E eles me procuravam. Pediam ajuda. Como assim?, eu me perguntava. Daonde veio isso? Quem sou eu para te ajudar? Porque, eu não tinha planejado nada daquilo. Tudo o que eu tinha feito era, simplesmente, me abrir. Me dedicar, me entregar por inteiro. Em meio a tantos passos na mata fechada, decidi que aquele era um lugar propício para desempacotar as ferramentas que trazia comigo na mochila. E algumas delas chamaram a atenção daqueles que estavam por perto. Alguns deles me pediram uma ou outra emprestada. E, dessa troca, nasceu uma conversa, em volta da fogueira. E do calor dessa proximidade, começamos a compartilhar nossas histórias. Nossos sonhos. Nossas vidas. Nossa arte.

Sim, foi no teatro que, pela primeira vez, eu percebi que havia feito um caminho estranho, torto, errante – e que, por isso; justamente por isso, ele era tão meu. E que por isso eu tenho, agora, uma facilidade absurda em acessar estados mais criativos, pautados em uma visão mais artística da vida. Uma visão mais leve, mais divertida (o que está longe de querer dizer que tudo é sempre uma maravilha – não é!). Com menos imposições e mais aberturas. Com menos respostas e mais perguntas. Com menos desejos superficiais e mais vontade. Uma vontade mais verdadeira, mais intuitiva.

Agora me sinto mais seguro do que eu estou fazendo (o que não quer dizer que já não existam dúvidas – porque existem!). Agora tenho um propósito pelo qual sinto que vale a pena me levantar todos os dias. Um propósito que eu descubro, amplio, reinvento constantemente. Tenho, afinal, não uma, mas um conjunto de profissões (ou seriam papéis?) que se complementam e me equilibram. A questão é que eu não quero que essa história toda – e o que quer que eu consiga cultivar a partir dela – fique limitada às pessoas que podem pagar pelos serviços que tenho para oferecer. Porque eu sei o quão valiosos esses encontros; essas possibilidades de compartilharmos experiências, podem ser. Porque eu sei o que é ser ajudado quando mais se precisa; quando se sente que não se tem nada para dar em troca.

E eu sei como pode ser delicioso encontrar um lugar na Internet com textos que nos abracem. Com palavras que façam sentido para o momento que estamos vivendo. Que tragam algum conforto para os nossos desconfortos. Que nos mostrem que nem tudo está perdido. E que, mesmo que você esteja se sentindo assim, sem eira nem beira, está tudo bem. Faz parte. Acontece. É humano. Você não está só. Temos uns aos outros. Podemos pedir ajuda. Podemos nos abrir. Podemos nos doar mais um pouquinho.

E é isso; só isso, o que eu quero oferecer. O Criadores do Agora é um livro. Um livro em fase de criação, sendo pensado, sentido e escrito enquanto você o lê. Só que talvez ele não seja só um livro. A minha vontade, aliás, é que ele seja muito mais do que isso. Muito maior do que eu, do que só você – ou você só.

Eu não tenho pretensão alguma de querer projetar quais palavras virão pela frente – e muito menos que futuro elas podem ajudar a criar (se é que podem ajudar em alguma coisa). Eu realmente não sei. Eu não ouso esquecer que ainda estou aqui, caminhando em meio à minha floresta… Tudo o que sei é que este livro começou a nascer em mim e eu quis colocá-lo no mundo. Porque eu senti que esta história merecia um final mais acolhedor do que a escuridão das minhas gavetas.

E pode ser que eu esteja alimentando falsas expectativas, de novo. Pode ser que este seja só mais um trecho, de um novo aprendizado. Talvez, uma vez mais, só minha mãe venha a ler estas palavras (obrigado, mãe! Gostaria de prometer que desta vez o texto será menos exótico, mas nunca se sabe). Talvez eu sinta que, lá na frente, ao colocar a última palavra e um ponto final nestas páginas, tudo isso representou só mais um fracasso.

… Sim, talvez. Talvez esta seja só mais uma ideia louca, que só faz sentido para mim.

Porém, agora, ao menos, independentemente do que acontecer, carrego comigo uma lição das minhas experiências teatrais: se for para errar, erre com convicção. Sim, porque, aí, talvez, ninguém nem perceba que estou errando. Talvez, aí, nem eu mesmo encare isso como um erro – porque, talvez, nunca tenha sido.

Talvez tudo isso fizesse mesmo parte da história que eu queria contar – a única história que eu; que você; que nós temos para compartilhar. A história que só nós poderíamos narrar, e mais ninguém – porque ela não está escrita em nenhum lugar. Somos nós que a improvisamos, aqui, no meio desta floresta, tão nossa. Somos nós que mergulhamos de cabeça; que saltamos no escuro, aqui, nestas linhas tortas, que para os outros parecem tão retas.

… Somos nós que criamos cada passo, cada letra, por nossa própria conta e risco, aqui e agora.

 

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Comece a ler: Introdução ao Livro, HistóriaProtagonista, Vencer o Jogo

 

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